Como não estudar matemática

Publicado em 30/09/13

Lápis na mão, livro aberto no meu colo, iluminação adequada, tudo perfeito.

E uma mosca pousa ao lado do meu estojo.

Agora não estou mais sozinha no quarto. Um intruso invade meu espaço, sua presença me deixa alerta. Olho para o inseto, que não responde à minha ação. Mosca mal educada. Penso em espantá-la do quarto. Levanto a mão, e ela nem se mexe. Fica imóvel, apenas ocupando espaço. A audácia da mosca me frustra, desisto de expulsá-la, pego o lápis novamente e volto ao exercício.

Mas sua simples presença me tormenta, torno a olhá-la. Não saiu do lugar.

Por que ela está aqui? Por que desperdiça a sua curta vida pousada no meu quarto? Que é que havia de interessante para ela aqui? Moscas tem asas, podem voar livremente por onde quiserem! Coisa que nós, humanos, passamos décadas tentando imitar.

Aquela mosca, que nada fazia, além de preencher espaço. Ora! Ela podia voar! Assim como muitos insetos tem essa enorme vantagem sobre nós humanos. O céu lhes pertence, a liberdade é toda deles.

A mosca imóvel e eu inquieta, afinal, como que esse macaco esquisito – sem pelos, sem garras, sem asas, sem veneno – conseguiu sobreviver num planeta pré histórico? O quê há no ser humano que não existe em nenhum outro animal? Como chegamos até aqui? Quando foi que começamos a desenvolver nosso intelecto?

A mosca se moveu, agora está pousada na parede à minha esquerda, mas meus pensamentos já a abandonaram faz tempo. Da mosca para o macaco. Lembro de ter lido algo sobre a utilização de ferramentas. A imagem de um macaco se aproveitando de um osso para quebrar alguma coisa me vem em mente (agradecimentos ao Stanley Kubrick, e seu magnífico filme: 2001, uma odisséia no espaço). Feita a descoberta, nosso ancestral ensinaria a técnica aos seus semelhantes. E a comunicação se tornou essencial. É essa a diferença. Ao criarmos um código linguístico para nos comunicarmos, nos diferenciamos de qualquer outro bicho. Torno a encarar a mosca. Digo com ar de sabichona. “Eu posso me comunicar.”

Ironicamente, a mosca se cansa da parede naquele momento, volta para a posição inicial, como que dizendo “e daí? Eu continuo podendo voar e você não.”

Assim como eu, a mosca está apenas lutando para sobreviver. Ela no conforto da mesa, longe do clima maluco que faz lá fora, longe de teias de aranha ou de outros predadores que possam ameaçá-la. E eu aqui, no conforto na cadeira, distante de qualquer indício de criminalidade, num mundo onde o risco é coisa de televisão. Olho para a mosca, ela não liga para mim. A minha presença nem a ameaça. É como se dissesse:

– Superior pra caramba, humana.

Mas não diz. Não diz pois não se comunica, não pensa, vive num mundo mecânico, onde o seu único objetivo é ver mais um nascer do Sol. E vai morrer um dia. Sua existência acabará….

Assim como a minha…

O final dos nossos livros será igual.

Eu não sou muito diferente da mosca pousada perto do meu estojo.

Em momentos assim que começo a pensar, pensar nos “porquês”. Por que a espécie humana sofre desse complexo de superioridade ridículo? O que leva alguns a pensarem que são melhores que os outros? E que critérios usamos? Cristãos e hereges? Brancos e negros? Heterossexuais e gays? Sala um e sala cinco? Por que um grupo é melhor que o outro? Por que passamos a vida inteira tentando provar que somos maiores que algo ou alguém, quando, no final, todos acabaremos do mesmo jeito? Somos todos seres finitos, todos estamos sujeitos ao mesmo destino. E, ao invés de perguntar “por que viver se tudo acabará?”, prefiro perguntar “por que sofrer se tudo acabará?”. Por que passar a vida se preocupando em superar o outro? Por que viver uma mentira para se encaixar nos padrões da sociedade? Por que hostilizar um grupo, seja o grupo uma religião, ou uma classe social, ou descendentes de uma etnia X, ou pessoas de uma orientação sexual Y? Por que buscar argumentos para afirmar a minha superioridade em relação à mosca?

E não digo que o ideal seria, portanto, vivermos o Carpe Diem (aproveite o dia). O ideal seria viver uma vida na qual não nos arrependamos no final. Que vivamos felizes, sem nos amargurarmos com as frustrações de não suportarmos a pressão social sobre algum aspecto. Que trabalhemos com o que quisermos, que namoremos quem quisermos, que estudemos onde quisermos, que façamos o que quisermos. De quê adianta lutar tanto para impressionar os outros? Com ordem e com respeito, por que devemos desistir da nossa própria felicidade, apenas para nos encaixarmos nos padrões sociais exigidos pelos outros?

E a felicidade pode vir de qualquer jeito para qualquer um. Se namorar alguém mais velho é sinônimo de felicidade para alguém, por que não? Se trabalhar num laboratório de química, misturando soluções o dia inteiro, é felicidade para alguém, por que não? Se estudar em um colégio que separa os alunos por nota é felicidade para alguém, por que não?

A vida é curta e o tempo passa logo, não podemos abrir mão da nossa felicidade. É ela que da sentido à vida…

Minha companheira diminuta cansou-se de mim. Saiu pela janela.

Torno a olhar o livro no meu colo, e lembro que ainda não terminei a lista de logaritmos, que eu já devia ter feito semana passada.

Rafaella Milani, 1C2

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