Direto da Flip: Rodrigo Lacerda presta homenagem à Domingos de Oliveira

Publicado em 03/07/09
 
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A estudante de comunicação Júlia Alquéres, ex aluna do Band, realiza cobertura da prestigiada Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).
Confira:
“O homem lúcido sabe que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que nunca se entusiasma com ela, assim como não teme a morte. O homem lúcido sabe que viver e morrer são o mesmo em matéria de valor, posto que a Vida contém tantos sofrimentos que a sua cessação não pode ser considerada um mal. 
O homem lúcido sabe que é o equilibrista na corda bamba da existência. Sabe que, por opção ou acidente, é possível cair no abismo, a qualquer momento, interrompendo a sessão do circo. 
Pode também o homem lúcido optar pela Vida. Aí então, ele esgotará todas as suas possibilidades. Passeará por seu campo aberto e por suas vielas floridas. Saberá ver a beleza em tudo. Terá amantes, amigos, ideais. Urdirá planos e os realizará. Resistirá aos infortúnios e até às doenças. E, se atingido por algum desses emissários, saberá suportá-los com coragem e mansidão. 
Morrerá o homem lúcido de causas naturais e em idade avançada, cercado por filhos e netos que seguirão sua magnífica aventura. Pairará então, sobre sua memória uma aura de bondade. Dir-se-á: aquele amou muito e fez bem às pessoas.
A justa lei máxima da natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem iguale-se sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O homem lúcido que optou pela Vida, com o consentimento dos Deuses, tem o poder magno de alterar esta lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis estarão sempre em maioria. 
Esta é uma cortesia que a Natureza faz com os homens lúcidos”.
Essas palavras são ditas por Cabral no final do filme Separações, de Domingos de Oliveira, lançado em 2003. Com elas, o escritor Rodrigo Lacerda fechou a mesa dois da Flip homenageando o cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira, que estava presente. 
E bastou ouvir Domingos por vinte minutos para constatar que ele é mesmo um homem lúcido. Casou-se e separou-se cinco vezes, sofreu muito em todas elas. “Na primeira, fiquei tão desarticulado que achei que os prédios da rua iam cair na minha cabeça”, conta. “Então eu descobri a psicanálise e o álcool”, ri. Foi também desta vez que ele socou a parede e quebrou uma das mãos. Mesmo assim, não abandonou a flauta. Aliás, o instrumento passou a ser um dos seus únicos alentos.  “Eu não conseguia falar, só tocava. Ia para o psiquiatra e ficava tocando flauta com a mão quebrada”, confessa.
Para Domingos, a dor da separação só pode ser comparada com a dor da morte de um homem. E, se o sofrimento humano muitas vezes não pode ser resolvido, que pelo menos possamos encontrar qualquer conforto na arte. É imitando a vida que Domingo faz seus filmes. Segundo ele, a arte deve explicar a vida e criar motivos para que continuemos aqui.   

E agora me lembro de uma frase de Nietzsche que certamente deve ser conhecida pelo cineasta. “Temos a arte para que a verdade não nos destrua”. E o ser humano deve então ser lúcido, muito lúcido para amar e perder, perder e amar, amar e perder… É dura a vida. Nós bebemos, quebramos mãos, visitamos psiquiatras. Nós sofremos, mas temos a arte. Por ela, vivemos.

“O homem lúcido sabe que é o equilibrista na corda bamba da existência”.

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