Concurso Fernando Pessoa 2016: Resultado

Publicado em 28/06/16

PRIMEIRO LUGAR:

Vem sentar-te comigo, Ricardo, na calçada da Paulista
Impotentemente fitemos o seu fluxo e aprendamos
Que a vida passa e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos)

Depois pensemos, adultos crianças, que a vida passa e eu só fico se eu quiser.
Da Vila Prudente a Vila Madalena
O meu Fado decido eu.

Desenlacemos as mãos porque não vale a pena amarrarmo-nos.
Já que passamos como o fluxo, gozemos muito
Mais vale saber passar estrondosamente
E chutando o balde várias vezes.

E os amores de amoras, que berram aos quatro ventos
Com paixões molhadas, que inundam até o deserto
E o rio que tenho em mim;
Corre e me transborda.

Fitemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias;
De novo.

Colhamos aquilo que a vida nos der
Na mão, no busto e no pé
Neste momento em que estamos a mercê, mas
De inocente aqui parado, só você.

Ao menos, se for sombra, lembrar-te-ás de mim depois.
Minha lembrança será a insônia suada porque,
Já que não as mãos, enlacemos as pernas
E há muito, deixamos de ser crianças.

E se, antes do que eu, levares óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada serei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Porque não se engane meu bem
Igual você, eu conheci mais cem.

Lidia,
Que nunca precisou de Reis
Pra ser rainha

Isadora Fernandes e Gabriele Souza, 3H2

SEGUNDO LUGAR:

insta

Ana Laura Viegas de Moraes, Marianna Fleury e Marianna de Oliveira Ribeiro, 3H1

TERCEIRO LUGAR: (EMPATE)

Por vezes sinto-me Alvaro de Campos. Sentada em minha humilde cadeira, uma das mil que há na escola, há de imaginar o futuro que alunos aqui localizamos podem criar. Por mais que Álvaro tenha apreciado máquinas, talvez tenha falhado em apreciar o que vem por trás delas. Pessoas, inteligência, sagacidade, conteúdo. O que mais magnífico do que ver aqueles que um dia serão responsáveis por tais mecanismos? Queres ver uma fábrica em trabalho, louvado autor? Convido-o a uma visita.

Na verdade, ignore meu tolo otimismo. Uma esperança mal colocada em adolescentes que ainda devem se descobrir antes de se aventurar e melhorar o mundo a sua volta. A realidade, Álvaro, é que por vezes é exatamente isso que falta. Autoconhecimento. Mesmo fora de minha ilusão, perdida dentro de mim, reconheço que há talento em nós jovens. Eles jovens. Porém, fornecer um norte é diferente de determinar o caminho a ser andando. Sabe, há uma prova. Aquele essencial exame usado para avaliar o conhecimento acumulado de tais indivíduos. Entretanto, tal espetacular exame inverterá as prioridades da educação. Se ensina para a prova, não se prova o ensinado.

Consequências diretas? Bom, não há liberdade artística. A curiosidade não se encaixa em um lugar onde datas de entrega, uma após outra, aumentam a sua probabilidade de não passar o ano que segue preocupado com o mesmo exame. Pois quem há de ler um livro que não está na lista? Desculpe, exímio autor, perdoe-me por cair a este padrão. Adoraria aventurar ainda mais sua mente, tão melancólica, indecisa e a procura de um eu como a minha. Mas, talvez eu não devesse reclamar. Sou jovem, certo? Somente uma escritora, sonhadora jovem. Ingênua, como podes assumir. E esse fato só acarreta outro problema. Imagine você, exímio autor, colocado na situação em que sua juventude teve que se definir tão linearmente. Se encontra-se perdido no seu estado mais sábio (perdoe novamente minha postura direta), imagine nós, que mal conhecemos que ‘eus’ podem estar presentes dentro de nós. E ainda assim, me sinto tão fragmentada quanto o senhor. Por vezes, tortura-me uma sequência de ensinos variados, por diversas horas que me forçam a permanecer no mundo objetivo. Prometo não ser por desrespeito professor, mas creio que o exímio Alvaro pode compreender a necessidade de retornar a pensar em nosso mundo racional, longe do real, e consequentemente de sua lousa. A esses longos dias autor, denominamos integral.

Alberto, desculpe não o ter direcionado. Seria de se esperar que me apresentasse ao mestre antes de seu pupilo. Mas ainda me encontro profundamente apaixonada pelas imagens que esse fornece. Minha própria máscara que gruda ao meu rosto, meu próprio colar formado por eus (apesar de ter um fio memória mais curto), e uma nostalgia que não se direciona a Lisboa, mesmo que creio que Alvaro tenha ido a essa cidade em busca da mesma resposta que eu desesperadamente procuro esse ano. Bom, creio que para tu, todas as minhas angústias somente comprovam sua teoria, certo? Talvez se vivesse mais no seu único e verdadeiro mundo, menos me afligiriam tais questões. Imaginando que tenhas lido as minhas confissões ao prévio exímio autor, que pensas? Em minha especulação, assumi que ambos o mestre e o pupilo seriam contrários às rédeas que informei serem fornecidas pela expectativa gerada do aluno. Não me entenda mal, Alberto. Por mais que ame meus sentidos, amo ainda mais o conhecimento. Mas não creio que há conhecimento sem liberdade, senão seremos somente máquinas destinadas a projetar o que nos foi definido. Quem sabe nesse ponto podemos concordar? Afinal, é a liberdade que o permite apreciar genuinamente paisagens, aromas e sabores. E mesmo Alvaro, preso em sua própria mente, pode também compreender. A falta de liberdade é uma prisão que transcende as realidades. Só se pode permanecer no estado melancólico, pois há tempo para que o faça. Tire este, substitua por tarefas incessantes e veja o que acontece. Um destes não será feito efetivamente, creio.

Estamos de acordo, então? Ambos heterônimos acreditam em liberdade artística, filosófica e física?

Pois bem. E agora a você, Fernando Pessoa, não direciono questões, teorias ou desabafos. A tu, reservei minhas maiores congratulações. Mal o conheço, via meu encarado estudo, mas o senhor já me maravilha. Gostaria de um dia me considerar escritora, poeta e metade do que o senhor já foi. Agradeço, dos mais profundos confins de minha rasa mente, por dividir sua habilidade, angústia e talento com o mundo. Sem você, não teria sido eu capaz de ter dentro de mim um desejo de escrever, de expressar-me, de fazer-me várias e ajudar pessoas como fizeste comigo. Foste como um professor que mesmo não presente, exerce em mim um impacto reconhecível.

Citando professores, não posso deixar de mencionar os meus próprios. Porém talvez seja mais apropriado fazê-lo por trás do texto, quem sabe as más mentes dirão que tenho segundas intenções com meus obrigadas.

Agradeço também à competição, por ter sido minha primeira oportunidade de me ver completa em dialogar com alguns que muito admiro, e de ter feito com que eu criasse coragem para escrever dessa maneira.

Por fim, a Ricardo Reis, anseio para conhecê-lo. Nosso encontro está para a próxima aula.

Alessandra Blücher, 3E2

DEMONSTRAÇÃO MATEMÁTICA PARA OS HETERÔNIMOS DE FERNANDO PESSOA

fp16 completo

Miguel Santucci, 3E2

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