O jovem e os transtornos emocionais

Publicado em 25/06/12

O aumento significativo dos transtornos emocionais em crianças e adolescentes, principalmente a depressão e a ansiedade tem gerado inúmeras preocupações. Fica difícil não nos perguntarmos por que isso estaria ocorrendo. Da mesma maneira como ocorre com os adultos, a depressão e a ansiedade em crianças e adolescentes gera alterações em seus pensamentos, emoções, comportamentos e também em seu organismo (alterações fisiológicas). Diante deste quadro, muitas vezes nos tornamos vulneráveis ao nos depararmos com dúvidas sobre qual a maneira mais correta de agir. É necessário, prioritariamente, que tenham conhecimento daquilo que está, efetivamente, acontecendo com crianças e adolescentes, a fim de conceituar adequadamente suas dificuldades e abordá-las de forma eficaz e efetiva. Além disso, também podemos nos perguntar: qual tem sido o nosso papel de educadores (pais e professores) diante do aumento e manutenção de transtornos emocionais, da depressão e da ansiedade, em crianças e adolescentes? Quais são os conceitos e idéias que passamos para eles?

De modo geral as pessoas entendem que são as situações que definem nossas emoções e comportamentos. Se uma criança ou adolescente falha numa atividade e fica triste desistindo de tentar novamente, atribuímos que foi a situação que gerou isso. O modelo cognitivo desenvolvido pelo médico psiquiatra Dr. Aaron Beck na década de 60, na Universidade da Pensilvânia, nos mostra que não é bem assim. Exaustivamente testado e apoiado por evidências empíricas, o modelo cognitivo mostra que não são as situações que definem nossas emoções e comportamentos, mas sim a forma como interpretamos e pensamos sobre as situações que nos levam a determinadas emoções e comportamentos. Vejam por exemplo, o caso da depressão: as crianças e os adolescentes deprimidos não apresentam pensamentos negativos por estarem deprimidos, mas estão deprimidos por apresentarem muitos pensamentos negativos sobre si mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. E no caso da ansiedade: as crianças e os adolescentes não deixam de enfrentar as situações por não serem capazes, mas sim por apresentarem pensamentos que superestimam a situação que vêem como ameaçadora e subestimam seus recursos internos (habilidades de enfrentamento). Ter a ciência desta inversão muda tudo na forma de como devemos lidar com a criança. Como devemos então orientar nossas crianças e adolescentes? Primeiramente nos perguntando como nós educadores interpretamos as situações do nosso próprio cotidiano. Afinal as crianças e os adolescentes aprendem com os adultos. A forma como interpretamos as situações do dia-a-dia e as atribuições que fazemos das nossas conquistas e fracassos e os das crianças e adolescentes, vão ser aprendidas por eles.

O psicólogo Martin Seligman, em suas pesquisas, desenvolveu a teoria sobre o desamparo aprendido e os estilos explicativos, para a qual a forma como as crianças e adolescentes pensam sobre as causas dos sucessos e insucessos define o otimismo e o pessimismo.

Crianças e adolescentes, que apresentam um estilo explicativo pessimista, tendem a se sentirem desamparadas, a desistir mais facilmente das tarefas e desafios, além de ficarem deprimidos com maior freqüência. Já os com estilo explicativo otimista põem fim ao desamparo e acreditam que o insucesso é apenas um contratempo passageiro e específico. Além de apresentarem melhor desempenho, elevada auto-estima, boa saúde física, habilidades sociais e de resolução de problemas, facilidade para fazer amigos, essas crianças e adolescentes lidam com os conflitos, respeitam as diferenças e apresentam metas claras e objetivas.

Por isso, é de extrema importância nos preocuparmos com a forma como transmitimos as idéias e os conceitos de sucesso e insucesso para as crianças e adolescentes.

O estilo explicativo é aprendido. É nosso papel desenvolver nas crianças e adolescentes um estilo explicativo otimista realista.

Mas afinal o que é ser otimista? É estar sempre feliz?  Sabemos que no nosso cotidiano temos que lidar com sentimentos negativos. Será que somente frases ou imagens positivas conseguem eliminar esses sentimentos?

Pesquisado através dos anos constatou-se que frases positivas, apenas, não surtem qualquer efeito. Seligman, 1942, definiu que o importante diante do fracasso é a forma como você pensa sobre esse fracasso, usando o “pensamento não-negativo”. É de Seligman a frase – “mudar as coisas destrutivas que você se diz quando sofre os reveses que a vida reserva a todos nós é a principal capacidade do otimismo”.

Portanto, Seligman, também conhecido como o “Doutor Felicidade”,  define: as bases do otimismo não estão assentadas nas frases positivas ou imagens de vitórias, mas na maneira como nós pensamos sobre as causas, sejam do sucesso ou do fracasso por que passamos.

Por isso, a diferença entre o otimista e o pessimista está na diferente forma como explicam as causas de eventos ruins ou positivos que lhes acontecem no cotidiano, ou seja, como é o seu “estilo explicativo”.

Vejam como exemplo: os otimistas entendem as situações de sucesso como mérito próprio, além de serem eventos capazes de permanecer e influenciar todas as áreas de suas vidas. Já as situações de insucesso são entendidas como situações passageiras e específicas à aquele evento, onde as causas foram provocadas por circunstâncias desfavoráveis. Os pessimistas explicam as situações de sucesso como algo passageiro e específico àquela situação, onde as causas são provocadas por circunstâncias externas. E as situações de insucesso são entendidas como eventos capazes de permanecer e influenciar todas as áreas de suas vidas, sendo eles os únicos responsáveis pelas vicissitudes.

Acreditar que os infortúnios da vida vão durar para sempre e que vão determinar tudo na vida, faz com que a criança ou o adolescente desista de tentar. A permanência e difusão de eventos ruins deixam a criança ou o adolescente sem esperanças; e isso já representa um passo rumo à depressão. Encontrar razões temporárias e específicas para os infortúnios da vida é a arte da esperança, já dizia Seligman.

Seligman, 1992, conclui que as metas “ser capaz” e “saber fazer bem” são mais facilmente operacionalizáveis e atingíveis, e que, quando atingidas, trazem inevitavelmente consigo o “sentir-se bem”, sugerindo que as metas, “ser capaz” e “saber fazer bem”, estão associadas a uma menor incidência de depressão.

Por isso, devemos estar alerta para identificar devidamente as atribuições que as crianças e os adolescentes fazem diante de seus sucessos ou fracassos, ajudando-os a desenvolver um estilo explicativo otimista realista, além de habilidades sociais e de resolução de problemas.

Serviram de fontes para esse texto:

Aprenda a ser otimista – Martin E.P Seligman – 2ª ed. Editora Nova Era – Rio de Janeiro 2005

Terapia Cognitiva. Teoria e Prática – Judith S. Beck – Editoras Artes Médicas – Porto Alegre 1997

Departamento de Orientação Educacional

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