Nós na garganta – Laura Rodrigues, 2I

Publicado em 29/08/19

A literatura são pássaros soltos que pousam sobre as pessoas, tocando-as em diferentes partes. A transcriação é uma mudança de galho: o bicho inócuo prepara-se para saltar para outra parte sensível do leitor. A percepção do enredo muda conforme o tamanho de voo, sem que se altere, necessariamente, a mensagem que foi deixada pelos passos do animal. Como é dito por José Carlos Avellar em sua obra O chão da palavra, “…os livros voltam aos filmes e os filmes aos livros numa conversa que jamais será interrompida”. Portanto, assim como o pássaro depende do voo, as trajetórias do mesmo dependem uma da outra. Se, na literatura, o piar pode ser ouvido sem que haja som, no cinema, ele pode ser visto sem que haja ao menos um pássaro (sensação que pode ser causada, por exemplo, por um jardim ameno). Um exemplo de tal transformação de linguagem é a passagem do conto Pássaros na boca para um curta-metragem.

Ao tratar da história de uma menina que comia pássaros, Gustavo Ribeiro, diretor do curta, deu um significado muito mais assombroso ao fato quando comparado à Samanta Schweblin, que parece ter escrito isso como algo mais absurdo e bizarro que aterrorizante. Algo que se mantém mesmo depois da transcrição é um fim curioso, fazendo o espectador perder horas num devaneio sobre o ocorrido, características comuns do realismo fantástico. Um dos escritores mais influentes desse movimento literário foi o Julio Cortázar, que comentou: “la indeterminación se convierte en un artificio para poner en marcha la imaginación del lector”.

Na obra filmada, pode-se perceber um trabalho intenso de Martin Grignaschi, diretor de som, que consegue provocar, apenas com o uso da trilha sonora, desconforto e tensão. Em uma experiência de assistir ao curta sem som, é notória a ausência de sentimentos negativos que as imagens e o belo e sereno semblante de Sara trazem. O áudio separa, inclusive, os sentimentos do pai e da filha: esta mostra certa tranquilidade para lidar com sua alimentação diferenciada, enquanto o homem, por sua vez, sente todo o distúrbio, que é enfatizado e construído pelo som, como ocorre nos momentos em que o personagem sobe as escadas para ver a menina.

A narrativa suscita, em muitos pontos, o crescimento: o descolamento desse ninho que é a casa. Se, quando pequena, Sara alimentava-se normalmente, com cuidados precavidos dos pais, o voo para o galho da adolescência faz com que a garota mude seus costumes.

O choque dos pais, ao ver que o ser que se criou é tão diferente do imaginado, é mais comum. Leva-se um tempo para perceber que, como disse Gilberto Gil, ao findar a estrada nada que for encontrado será da forma que se esperava no início, e que os filhos nunca irão – nem conseguiriam – voar os mesmos ares que os familiares. Os ventos mudam!

A única forma de tornar essa transcriação – que é também a própria adolescência, considerando que é a passagem de uma forma infantil para uma mais adulta (como uma poesia livre para um soneto rígido) – mais leve é não deixar que a menina engula a fase sozinha. Quando os pais percebem que Sara começa a comer pássaros (metáfora para uma nova fase da vida?), o rosto da menina ganha uma aparência mais alegre. Só de compartilhar esse hábito com alguém, o ato se torna muito mais leve – é um pássaro a menos para lidar.

Caso todos os envolvidos na história decidam que também ingerirão esses animais, o problema se torna mais leve. Em cada engolidor de pássaro haverá um pouco de dor, mas, se assim não fosse, seria como amar uma mulher só linda, sem qualquer coisa triste. Nem o Samba da Benção conseguiria achar sentido nisso.

Resenha escrita para a eletiva Literatura e Cinema, ministrada para os 2os anos no primeiro semestre de 2019. 

 

 

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