Textos-Modelo – Prova Bimestral de Estudos Linguísticos 2 (Rotina)

Publicado em 07/10/19

Abaixo, vocês poderão ler quatro ÓTIMOS textos produzidos na prova bimestral de Estudos Linguísticos 2. O João Pedro Tetamante (3H), a Júlia Suave (3E), a Lívia Gondo (3E) e o Luís Zucchi (3L) produziram dissertações acerca do tema “rotina”. Ao longo da leitura, vocês poderão acompanhar diferentes visões, abordagens, técnicas e argumentos. As diferenças já se fazem sentir desde os títulos!

A rotina do capital

(João Pedro Tetamante)

            No início da primeira Revolução Industrial, na Inglaterra, os operários das fábricas eram forçados a adotar rotinas longas e exaustivas para enquadrar-se no novo modelo de produção industrial. Essa submissão do trabalhador às imposições do sistema, hoje, corresponde ao conceito de rotina. Portanto, fica evidente que, atualmente, a rotina do homem é uma imposição capitalista sustentada na alienação socioeconômica da população, cuja liberdade reside no esclarecimento do indivíduo frente aos mecanismos de controle do sistema, ou seja, a “quebra” da rotina.

            Segundo o filósofo Karl Marx, o capitalismo objetifica as pessoas em formas de obtenção de dinheiro por meio da alienação socioeconômica da população. À vista disso, o sistema adultera o conceito de rotina, transmitindo uma ideia positiva desta para a comunidade por meio da relação supérflua entre rotina e dinheiro. Dessa forma, os indivíduos são induzidos a aceitar as imposições absurdas do sistema em relação a padronização e exploração do trabalhador, que tem sua visão distorcida pelo desejo subconsciente do dinheiro e pela propaganda produzida dos processos rotineiros. Logo, o homem que se submete à rotina permite que o sistema capitalista controle sua vida, explorando todo seu potencial de gerar dinheiro e consumindo todo o tempo hábil de sua vida, que é transformado pela rotina em “tempo produtivo”.

            Cabe ressaltar que, para o filósofo Kant, o Esclarecimento é um estado de espírito em que o indivíduo adquire uma visão clara do mundo como ele realmente é. No contexto do sistema capitalista vigente, esse esclarecimento corresponde à “quebra” da rotina e, consequentemente, à libertação do homem. Traçando um paralelo com o pensamento de Kant, o indivíduo inserido em uma rotina está, na verdade, preso a um círculo vicioso imposto pelo sistema, no qual a única forma de libertação é a tomada de consciência, que só é possível com o rompimento da corrente de hábitos e costumes incorporados na rotina. Posto isso, é importante salientar que a rotina configura um processo de cerceamento da liberdade individual, uma vez que ela restringe o comportamento do indivíduo a um círculo vicioso.

            Tendo isso em vista, é possível associar a teoria da revolução operária de Marx ao Esclarecimento proposto por Kant, de modo que os trabalhadores estariam, finalmente, tomando consciência do contexto a que eles se inseriam.

            Em conclusão, a rotina, que assumiu controle da sociedade na Primeira Revolução Industrial, continua a ditar o comportamento do homem nos dias atuais. Apesar de suas formas de alienação social, o capitalismo, que se manifesta nas ideologias do trabalho, é incapaz de controlar um indivíduo “esclarecido”, ou seja, um que já foi capaz de “quebrar” a rotina capitalista.

 

Da larva rotineira à borboleta metamórfica – o manto diáfano da transformação

(Júlia Suave)

            No filme “Mistério no Mediterrâneo”, o casal protagonizado por Adam Sandler e Jennifer Anniston passa por uma crise após dez anos de casamento. Assim, decidem fazer uma viagem á Europa, a fim de reavivar a relação, que havia “caído na rotina”. A situação retratada no filme se assemelha á visão deturpada que o ser humano possui a respeito de hábitos e repetições. A rotina não deve ser abominada e classificada como sinônimo de comodidade – é nas entrelinhas do dia a dia que a transformação surge. Dessa forma, ainda que seja impossível escapar de obrigações diárias, a vida é uma metamorfose em suas particularidades.

            A vida é um ciclo diário do qual não há escapatória: as obrigações são inevitáveis. Desse modo, um padrão de repetição cria-se involuntariamente e torna-se fundamental no que tange o progresso e realizações pessoais. É através da rotina, disciplina e dedicação que sonhos são viabilizados e que habilidades são desenvolvidas, aperfeiçoadas. Tocar um instrumento, por exemplo, é resultado de incessantes repetições e prática – a concretização de desejos e talentos se dá através da rotina, é inegável. Assim, dia após dia, ainda que não se note com tanta clareza, há evolução. Dessa forma, é um equívoco dizer que viver em rotina é se submeter a dias equivalentes e cômodos, uma vez que a própria vida nos tira da zona de conforto em busca da superação, ainda que lenta e gradual.

            O aprendizado e a evolução que se consolidam são resultado da vivência, do aprendizado e das experiências diárias proporcionadas pela rotina. Em vista disso, nenhum dia pode ser considerado igual, pois nós, e tampouco aqueles que nos cercam, permanecemos os mesmos. A vida é uma constante inconstância, na qual as transformações são moldadas em suas particularidades – a metamorfose diária. Para que a pequena larva se torne uma linda borboleta, é necessário respeitar o processo. Enquanto o ser humano abominar a rotina, estará negando sua própria evolução e maturidade.

            Portanto, o padrão de repetição vivido dia após dia resulta não só da concretização de sonhos e metas, como também no crescimento pessoal de cada um. Assim, é de extrema importância que se valorize a rotina, pois é no implícito que se encontra a evolução e a mudança. Todos os dias aprende-se com a incessante mutação.

 

Rotineiro modo de viver

(Lívia Gondo)

            Na distopia de Orwell, 1984, é retratada uma sociedade de padronização da vida, assistida pela Polícia das Ideias a todo momento. O Partido impingiu, pelo cerceamento e constante controle, uma rotina única a todos a qual consistia no trabalho, para a manutenção do aparelho estatal, e no culto à personalidade do Grande Irmão, para a alienação e subjugação da população. Como no clássico, vivemos numa sociedade na qual a rotina é imposta como padronização de como viver no mundo atual. Como um manual de instruções, define os limites e regras sociais, atuando como balizadora da livre expressão do ser humano.

            A existência de um sistema implica o desejo de controle para a preservação desse sistema. A rotina foi a solução estabelecida para ensinar a população a acomodar- se: desde que um indivíduo nasce e assiste a seus pais indiferentes às obrigações rotineiras familiares, é estabelecida uma consciência estoica de resignação à vida como ela é. Isso pois as instituições sociais reiteram constantemente a necessidade, à parte as nossas vontades individuais, de que precisamos estudar e trabalhar incansavelmente, por exemplo, posto que são atividades supostamente inerentes à condição do ser humano, em sociedades industrializadas, para atingir a felicidade e o respeito. Assim, a rotina, como manual do que devemos fazer obrigatoriamente todos os dias, nos é imposta, também, como disciplina imprescindível à conquista da realização pessoal. Ao definir a projeção de vida que todos devem almejar, como alcançar a estabilidade financeira ou uma carreira de sucesso, cria- se um padrão de consciência coletiva do que é satisfação e felicidade.

            Nesse ínterim de padronização, inadaptado e louco é aquele que não limita suas ambições ao pequeno leque de realizações supostamente intrínsecas ao ser social bem-sucedido. Infelizes e insatisfeitos são aqueles que não conquistam os frutos que a rotina, tão avidamente seguida e valorizada por alguns, deveria fazer florescer- já que somos ensinados que a disciplina rotineira é fundamental à autorrealização em todas as esferas (econômicas, profissionais, qualquer que sejam). E, dessa forma, o ser humano se distancia do seu estado de natureza que, segundo Rousseau, era de felicidade genuína.

            Portanto, torna- se difícil distinguir nossas conquistas e satisfações do que é intrínseco à natureza humana e do que a sociedade impingiu ao padrão de consciência coletiva como realizações essenciais à felicidade. Aqueles que não se subjugam a isso, são vistos como desequilibrados. Esse molde de rotina como a conhecemos baliza a expressão do ser humano, que é julgado se não segue o manual estabelecido. Assim, tal qual em 1984, somos reféns do nosso rotineiro modo de viver.

 

Rotina equilibrada

(Luís Zucchi de Souza)

            Acordar, escovar os dentes, ir ao trabalho, pegar trânsito, exercer sua função, voltar para casa, pegar mais trânsito, dormir. Tornou-se uma rotina. Acordar, caminhar em uma praça, ir ao trabalho, ler um livro, voltar para casa, assistir um filme, dormir. Também se tornou uma rotina. Nosso dia a dia é escolhido por nós mesmos, e não podemos permitir que as obrigações do cotidiano tomem todo o nosso tempo e nos impeça de fazer o que gostamos. Somos responsáveis por nossa própria rotina, assim, não podemos culpá-la por nossa condição, mas temos o dever de torná-la agradável.

            Por conta das inúmeras responsabilidades que recaem sobre o ser humano, a vida torna-se repetitiva e monótona. Nossos passatempos e lazeres são adiados, pois pensamos que não são necessários à sobrevivência, apenas existem para que fujamos da realidade opressiva e desgostosa que nos cerca. Se queremos ir ao cinema, aguardamos o fim de semana, isso quando estamos desocupados nele, mas se chegamos mais cedo do trabalho, apenas esperamos o dia se findar e a rotina voltar ao normal. Esse comportamento em que o lazer não tem lugar se deve em grande parte à lógica capitalista das relações de trabalho, teorizada pelo alemão Karl Marx, na qual a única função do indivíduo é exercer a sua profissão, negligenciando seus interesses pessoais e apenas se preocupando com seu salário. A situação é essa desde a Primeira Revolução Industrial, em que operários foram inseridos em rotinas de trabalho e eram explorados ilimitadamente, tendo o seu bem mais precioso roubado: o tempo. E, infelizmente, esse contexto perdura até a contemporaneidade.

            Porém, não há a necessidade de o status quo permanecer o mesmo. Segundo o filósofo francês Paul Sartre, a vida é feita somente e unicamente a partir de nossas escolhas. Portanto, se vivemos uma rotina monótona e angustiante, a culpa é somente nossa, por termos a possibilidade de mudá-la e não o fazermos. O dia é composto por horas de trabalho, de obrigações, e de lacunas. Se soubermos preencher esses espaços de tempo obsoletos, que costumeiramente desperdiçamos ao lamentar a falta de tempo e o tédio, poderemos encaixar atividades de lazer e hobbies, assim equilibrando a rotina e aproveitando a vida.

            Em suma, as responsabilidades não são inibidoras de momentos agradáveis. Há a necessidade de trabalharmos, pagarmos nossas despesas e de procurar garantir uma vida com menos preocupações financeiras, mas devemos conciliar o nosso tempo reservado a isso com o que gostamos de fazer. A rotina é uma repetição, o que repetimos cabe a nós escolher.

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