Textos-modelo da prova do 3.o bi: Sophia Costa e Natália Rocha

Publicado em 02/10/18

Na prova de estudos linguísticos do 3.o bimestre, os alunos foram convidados a refletir sobre a empatia. O tema foi muito bem explorado por vários alunos, especialmente pela Sophia Costa, da 3I, e pela Natália Rocha, da 3E. A Sophia estabeleceu uma relação bastante pertinente entre a falta de empatia dos tempos atuais e a grande influência das redes sociais que, com seus algoritmos, nos preserva do “perigo” de lidar com a divergência, o diferente. Já a Natália propôs uma investigação de certa forma incômoda, mas muito pertinente: por que ser empático com o criminoso, o intolerante, com quem já atuou de forma tão pouco empática com os demais?

Vale muito a pena ler os textos das alunas para pensar em abordagens possíveis, a partir de um olhar mais crítico para os temas de natureza abstrata. Que boas leituras gerem mais bons textos!

 

Bolhas ideológicas e (ausência de) empatia: rumo ao retrocesso

Por Sophia B. Costa, 3I

 A empatia, capacidade de reconhecer o outro e suas necessidades, é vital no mundo globalizado de hoje, no qual a diversidade tem sido crescentemente discutida. Afinal, para lidar com divergências, como as políticas, é essencial colocar-se no lugar do próximo e compreender o que leva a essas disparidades. Para esse processo, a empatia é necessária, mas seu exercício tem sido dificultado, no mundo atual, pela fragmentação que redes sociais, por exemplo, causam.

As redes sociais, como o Facebook, em tese, conectariam pessoas com diferentes posicionamentos, o que as faria conhecer o lado do outro e, assim, desenvolver empatia com ele. Entretanto, a prática é distinta: o site de relacionamento de Zuckerberg, assim como outras páginas, se apoia em um algoritmo que conecta usuários com gostos e ideias similares. Então, essas pessoas restringem-se ao contato com conteúdos que apenas reafirmam seus posicionamentos, fechando-se em uma bolha ideológica, a qual impossibilita o desenvolvimento de empatia com conceitos fora desse círculo. Logo, as redes sociais, que deveriam ser como pontes empáticas, tornaram-se redomas que aprisionam seus usuários, privando-os do contato com o mundo exterior: as ideias alheias às suas.

Um exemplo de posicionamento intensificado pela falta de empatia causada pelas bolhas ideológicas é a preferência política. Esta, no Brasil, tem sido vertiginosamente polarizada, situação favorecida pela divisão das pessoas em “tribos” de mesmo pensamento. Esses grupos – os “petralhas” versus os “bolsominions”, os “lacradorxs” contra os “opressores”, entre outros – enxergam uns aos outros com hostilidade, como se a política fosse um embate entre o lado dos heróis e o dos bandidos. Tamanho abismo criado entre os indivíduos dificulta o contato entre eles, o qual poderia levar à empatia e à conciliação entre todas as partes, para exigirem medidas benéficas a todas. Como tal união empática inexiste, as pessoas estão cada vez mais fragmentadas e odiosas com aquelas de que divergem, facilitando a popularização de candidatos extremistas. Estes se aproveitam da rivalidade entre grupos para veicular suas propostas nefastas, muitas vezes contrárias aos direitos humanos e que, por isso, trariam retrocessos para todos. Será que apenas quando o povo se vir humilhado e rebaixado por isso, ele finalmente entenderá a necessidade de, por meio da empatia, reconhecer e respeitar o outro?

Portanto, a empatia, ou seja, colocar-se no lugar de outrem, é vital no mundo globalizado, porque, nele, as pessoas entram em contato com cada vez mais diversidade. Porém, nele, também, as redes sociais fazem seus usuários se fecharem em bolhas ideológicas, impossibilitando o conhecimento de outras visões e a criação, com elas, de empatia. Sem esta, não se respeita nem se compreende o ponto de vista alheio, o que favorece a polarização política e a ascensão de candidatos cujas repugnantes ideias representam um prejuízo geral.

 

A razão nos atos inexplicáveis

Por Natália Rocha 3°E

Respeito. Compaixão. Solidariedade. Ao longo da existência milenar do ser humano, em especial após a Era Cristã, valores como estes foram pregados e exaltados. Embora não seja possível aplicá-los integralmente no cotidiano, sua escassez ou completa ausência nas relações interpessoais pode provocar conflitos e a decadência moral do homem. Nos dias atuais, infelizmente pode-se dizer que estamos vivenciando tal declínio por falta de um valor: a empatia. Logo, é primordial que seja relembrada a sua necessidade na vida do homem moderno.

O ponto de partida para compreender a relevância da empatia atualmente é conhecer o conceito, a teoria. Segundo o psicólogo americano Marshall Rosenberg, empatia é definida como o ato de reconhecer o ponto de vista alheio não sob uma ótica pessoal, mas pelo olhar do outro. No entanto, junto desta concepção surge um questionamento: é possível ser empático em uma situação de intolerância?

Um exemplo para se debater tal dilema são os casos de crimes hediondos, tais como estupro e assassinato. Ainda que claramente violem os direitos humanos, essas ações seguiam uma lógica dentro da mente do infrator. E, como aparece na adaptação cinematográfica de um dos livros mais aclamados do século XX, O sol é para todos, “você nunca entende realmente uma pessoa até ver as coisas do ponto de vista dela”. A única forma de fazer um criminoso assimilar o impacto de suas atitudes e possibilitar sua eventual reabilitação é aceitar que, por mais sem cabimento que o ato praticado possa ser, ele faz sentido para o outro. Dessa forma, esses crimes violentos podem ser explicados sem serem justificados.

Em um plano mais rotineiro, outro momento em que a empatia exerce um papel fundamental é no combate ao racismo. Mesmo que rebaixar outro ser humano por sua mera cor de pele seja infundado, o preconceituoso crê piamente que há princípios que sustentam sua opinião, muito influenciada pela discriminação histórica. Portanto, entender esses fundamentos é o que permitirá o combate a tal discurso nocivo e a desconstrução da base dessa mentalidade de forma eficaz, visto que, com essa abordagem, o outro ficará sem argumentos “plausíveis” para defender sua postura intolerante.

Em suma, não se pede à sociedade do século XXI unanimidade, alienação, resignação nem aceitação incondicional da realidade em que está inserida. Apenas se urge por um pouco de compreensão.

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