Os Senhores do Verão

Publicado em 28/03/14

Cinco horas de fila. Cinco horas e meia de espera dentro do estádio. Atraso da banda de abertura de uma hora. Chuva incessante. Uma multidão de gente se apertando e pulando para todos os lados. É assim que eu descreveria mais ou menos como foi um dos melhores dias da minha vida. É claro, estaria faltando o detalhe mais essencial: a menos de 5 metros na minha frente a maior banda de Heavy Metal do mundo rugindo descontroladamente. Foi dessa forma que eu assisti, praticamente da grade, ao show do Metallica no último sábado, 22 de março de 2014, no Estádio do Morumbi.

A espera foi de muita expectativa. Depois de horas na fila e ansiedade dentro do estádio, o público de por volta de 65 mil pessoas ainda teve que contar com o atraso de mais de uma hora da banda de abertura Raven, o que acabou adiando ainda mais a atração principal. Porém, com o término do show da Raven, a equipe do Metallica se mostrou extremamente eficiente, sendo capaz de montar toda a aparelhagem da banda e passar todo o som em menos de 40 minutos. E foi nesse momento que as caixas de som que tocaram diversas músicas o dia inteiro começaram a reproduzir o clássico “It’s a Long Way To The Top (If You Wanna Rock And Roll)” da banda de hard rock AC/DC. Para os desavisados, apenas mais uma música tocando antes de o show começar, para os fãs mais apaixonados, uma mensagem: “O Metallica está vindo”.

Porém, de repente, uma surpresa (a primeira de muitas). Onde muitos esperavam ouvir a icônica música de Ennio Morricone “Ecstasy of Gold” usada pelo Metallica como introdução de todos os seus shows, entrou no lugar um vídeo, uma pequena esquete de dois minutos que mostra todos os membros da banda lendo, em um computador, “críticas e conselhos de fãs”. Críticas e conselhos esses que refletem todas as reclamações e todos os pedidos feitos pelos fãs da banda nos últimos anos, coisas como “More thrash!” (Mais agressividade!) e “Release a f*cking album!” (Lancem a p*rra de um álbum!), todas sendo respondidas de forma muito bem humorada e até mesmo humilde pela banda. A mensagem é clara: O Metallica voltou a ser a banda que escuta e considera a opinião dos fãs sem se submeter a ela, mas também sem ignorá-la completamente.

Mas foi só o vídeo acabar que “Ecstasy of Gold” invadiu o estádio com sua melodia, e esse posso descrever como um dos momentos mais emocionantes de todo o show, quando todas as 65 mil pessoas estavam juntas cantarolando junto com os violinos, esperando, ansiosamente. E, de repente, lá estavam eles, os quatro membros do Metallica, todos lá, na minha frente, martelando os acordes ferozes de “Battery” enquanto o público avançava desesperadamente. Nunca vou conseguir descrever em palavras (ou em nenhuma outra mídia) a sensação que foi ver, a poucos metros de distância, os maiores ídolos da minha vida. O sangue todo subiu à cabeça, a adrenalina disparou e a única coisa que eu conseguia pensar era: “Eles estão ali! Eles existem!” E a única coisa que eu conseguia fazer era cantar. Gritar as letras. “MASTER! MASTER!”

Foi então que o show se mostrou cheio de novidades. Para começar já com a turnê da qual ele fazia parte, a “Metallica by Request”, onde quase todas as músicas foram escolhidas em votação por todos os que compraram ingressos pela internet, o que trouxe ao palco grandes clássicos como “… And Justice For All” e raridades como “Whiskey in the Jar”, música cover que a banda não tocava há mais de nove anos. Outra grande novidade (provavelmente também exclusiva da turnê “by Request”) foi a chance de  membros sorteados do fã clube brasileiro do Metallica não só assistirem ao show do próprio palco, mas também anunciarem para a plateia algumas das músicas que seriam tocadas, como foi o caso da violenta “Sad but True”, da exótica “Whiskey in the Jar” e da clássica “Creeping Death”. E, como se já não bastassem as novidades, o Metallica ainda apresentou sua mais nova composição, “Lords of Summer”, revelada ao público apenas uma semana antes no primeiro show da turnê em Bogotá, na Colômbia. A música é nova, mas durante seus oito minutos de duração, ela consegue capturar o estilo de todas as fases do Metallica e extrair de cada uma o que ela possui de melhor.

Por fim, em termos gerais e críticos, o show (assim como toda a turnê) pode ser considerado uma declaração simples: aquele Metallica que em 2000 insultou os fãs enquanto processava a Napster está morto e enterrado. Agora o Metallica voltou a se preocupar com seu público tanto quanto se preocupa com sua autenticidade. Em termos mais pessoais, o que eu pude ver ali foi um Metallica vivo e orgânico, um Metallica que se aproxima dos fãs, um Metallica disposto a inovar tanto estrutural quanto musicalmente, um Metallica que passou por péssimos momentos e foi capaz de se reerguer, um Metallica que, se for o Metallica do futuro, continuará sendo, indubitavelmente, minha banda favorita. Como diz a letra da mais nova música da banda: “The Lords of Summer have returned.” (Os Senhores do Verão voltaram). Long live the ‘Tallica!

Lucas Akio Nakamura (3H2)

 

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