No sopé da montanha

Publicado em 02/10/13

           Dizem que se você olhar um tantinho mais para a esquerda, logo no sopé da montanha, você verá a aldeia.

           Bem ali, oculta pelas sombras que mergulhavam pela vasta e seca planície, onde as árvores de folhas farfalhantes eram engolidas melancolicamente pela pesada escuridão, triste e descontínua.

            Escondida também, dizem, dos pensamentos e lembranças das pessoas de cá. As estradas enlameadas e perigosas já não apareciam nos mapas dos velhos que ocupavam as docas do sul, nem dos mineiros do oeste. Abandonada.

             Lá, na tal aldeia, a brisa sopra mais forte. As folhas carregadas suavemente pelo ar frio do outono cortam a penumbra montanhosa até pousarem, vagarosas, na relva ainda úmida pelo orvalho das manhãs.

             Ali, é singela e tranquila a melodia entoada pelas cotovias, espectadoras ao nascer do sol, distante, que traz consigo um vento quente que acorda a natureza adormecida pela longa madrugada, e o seu negror estranho no céu vazio, sem estrelas. O sol, por si só, irrompe as sombras da montanha que, uma vez confrontadas, afastam-se, como uma onda, como a maré baixa que leva os barcos da praia.

           Com as sombras, parte a melancolia que adormeceu todos os moradores daquela pequena aldeia. E então, o espaço deixado é logo preenchido por algo vivaz. Algo intocável e imaterial. De fato, uma sensação. Uma vontade. Súbita, como a luz solar que agora se coloca sobre a pequena aldeia e a região a sua volta.

             É o Viver. Os momentos, o irremediável passado, o vívido presente e o desconhecido futuro. E então, a vontade, em busca de mais espaço na luta contra a escuridão enfraquecida, encontra um lugar mais apertado: o coração de cada morador da pequena aldeia. Corações afligidos e mentes perturbadas pelas angústias vindouras do terrível escuro de todas as noites.  Conturbados pelo isolamento ao qual o lugarejo era submetido (e por consequência suas vidas), e esquecidos pelo tempo e até mesmo por aquilo que os fez estar ali. Uns chamavam de Deus. Outros de Força, e alguns de Energia.

                Mas a tal sensação ia ainda mais fundo. E mais, e mais fundo. Até encontrar uma linha tênue e diminuída. Diziam que os anciãos do vilarejo chamavam tais linhas de Esperança, e que cada um tinha uma dentro de si. Ao encontrá-la, o Viver tratava logo de acalentar a Esperança esfriada e atacada pelas sombras da montanha e o soturno escuro.

                Durante o dia, a Esperança crescia dentro dos corações dos moradores que saíam de suas casas para começar sua rotina. Uma explosão de êxtase tornava o ar mais leve, a ponto de que sua força para carregar a mais leve das folhas secas esgotava-se. A luz, carregando o Viver, alimentava os antes frágeis e dominados corações, e os envolvia como o corpo de uma mulher envolve o masculino numa noite de amor. Essa luz, sedutora, atraente e jovial, chegava ao seu auge por volta do meio-dia, quando o burburinho frenético dos habitantes da pequena aldeia tornava-se audível ao outro lado da montanha congelada.

                E a partir daquele momento, o Viver, de tanto trabalho, começa a demonstrar um tanto de esgotamento. Cansaço mesmo. As horas passam e o Viver fica cada vez mais fraco, mais pobre, menos vivo. O sol já se vê ante a montanha, e a sombra surge devagar, invencível, como um poderoso exército de combatentes aguerridos, com sede de vingança por uma derrota acachapante.

                Sem no que aquecerem-se, as linhas de Esperança, que ao meio-dia estavam grossas e fortificadas, se esvaem. Como uma bexiga desinfla, as linhas vão ficando mais finas e delicadas, até culminarem num ponto crítico. O poente é anunciado pelas cigarras que, com o cada vez mais próximo final do outono, aparecem na copa das árvores para esbanjar uma última melodia antes do rigoroso inverno. Desconcertante, o sol esconde-se atrás da montanha, cujas apáticas sombras, mais uma vez, exercem um peso imensurável e absurdo na atmosfera vazia.

                E o escuro volta ainda mais poderoso e aterrador.

                Corações e mentes transbordados de aflições e angústias.

                Mas no fundo, bem no fundo, a linha de Esperança ainda existe. Pequena, fraca, de fato, mas esperançosa de que, num ciclo eterno e contínuo, o calor diurno venha afastar as tribulações trazidas pelas sombras, que sobem como maré cheia.

                Nem todos conseguem enxergar a aldeia. Nem mesmo apertando os olhos, num vão esforço.

                São os que ainda não conhecem bem a vida. Não sentiram o Viver. Mas que estão ainda em busca dessa vontade que parece omissa em momentos tão complicados.

                Todos nós experimentamos o Viver. E, quando ele vem, acompanha o sonho de um futuro orgástico, que ano a ano parece mais próximo ou distante, palpável ou ainda inalcançável.

                A Esperança existe no coração de cada um. Basta saber que ela está lá, ainda que agonizante em certos momentos, e madura em outros.

                Basta estar certo disso, e esperançoso. Esperançoso como os aldeões, apenas esperando para sentir de novo aquele Viver.

                  E assim você a verá, encostada ali, no sopé da montanha.

Pedro Forbes, 1A1

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