Margot

Publicado em 20/05/13
Lázaro empurrou o portão da casa onde Margot vivera seus últimos anos. O portão de ferro rangeu o descuido do tempo. No pequeno jardim da entrada, as folhas secas de uma figueira enorme foram varridas pelo vento, fugindo como insetos quando uma presença maior entra em cena. Margot adorava aquela figueira. Adorava mais ainda os figos que recebia dela, como gratificação pelos cuidados, numa relação simbiótica. A árvore havia sido quase tão velha quanto ela. Mas agora Margot estava morta e a figueira perdurava. Pro inferno com a simbiose.

Lutando contra a artrite, Lázaro escolheu a chave que conhecia tão bem e abriu a porta da frente. O verniz nas volutas dos ornamentos barrocos estava descascando. Lá dentro, uma dezena de fantasmas brancos cobriam os móveis do pó levantado pela corrente de ar que entrou com Lázaro. Devolveram-lhe o aroma de Margot e instantaneamente um flash de lembranças quase palpáveis do corpo dela, do estilo que só ela tivera na juventude e uma distante noção do modo com o qual ela encarava a vida. Nostalgia. Tristeza e uma infindável solidão que enfraqueceu-lhe as pernas. Segurou-se no batente da porta. A casa ainda tinha a presença dela. Forte, como se ela estivesse mesmo dentro da casas

Lázaro entrou com a maleta. Ficaria lá pelos próximos dias, para fazer o inventário dos espólios de Margot. Passou a tarde retirando os lençóis brancos dos móveis, colocando o relógio de parede para funcionar e abrindo a casa. O sol entrava pela janela e iluminava as partículas de pó se revoltando contra aquele intruso. Em seguida, abriu o escritório. Paredes forradas em veludo já mostravam sinais de infiltração. Largou a maleta sobre a mesa. O escritório não lhe dizia nada sobre Margot. Alguém havia estado aqui e deixado a papelada para que ele trabalhasse. Essa pequena intromissão tirara daquela sala todo resquício dela. E de qualquer forma, nos anos que Lázaro passara na casa, usara o escritório muito mais do que ela.

Ao lado do escritório, as escadas. Lázaro teve medo da artrite e não subiu. Ao lado delas, um elevador rudimentar. Entrou, fechou as grades a duras penas e apertou o segundo andar, reclinando contra as paredes de madeira laminada. O maquinário rangeu um protesto, mas aceitou a subida. Lázaro saiu do elevador para um corredor estreito em forma de L que levava dos dois quartos à direita, para um banheiro à esquerda.

Guiado por um irracional desejo, pisou no banheiro em frente ao espelho simples, quadrado, sobre a pia branca que ele sabia estava descolada da parede e bamba. Margot nunca consertara a maldita pia. De uma cômoda ao lado da pia vinha-lhe o aroma dos perfumes de Margot. Eram perfumes masculinos, em sua maioria. Ela adorava perfumes masculinos, e embora ele conhecera outras mulheres que os preferiam, lembraria sempre dela quando associasse o corpo feminino a estes aromas. Lembrava-se agora das tantas vezes em que voltara dos encontros com ela e descobrira maravilhado que suas roupas estavam impregnadas daquele cheiro. Esticou a mão para alcançar o interruptor, mas deteve-se diante de idéia de que encontraria no espelho não seu próprio reflexo, mas o reflexo dela…

Pausa. O gotejar de canos vazando trazia à mente ideias de tempo, do limo crescendo entre azulejos.

Respirou fundo e apertou o interruptor: no espelho, apenas a figura nariguda e enrugada dele mesmo. A devastação de seus cabelos brancos criando entradas cada vez mais fundas na testa. Olhou em volta: havia ainda a banheira de porcelana, com a cortina de plástico suja, e o armário de remédios que não socorrera Margot a tempo. Estruturas de ferro com toalhas empoleiradas também. Tudo esverdeado pela iluminação de uma doentia luz fluorescente. Sua mão ainda estava no interruptor: apagou a luz e foi para o quarto.

Deteve-se frente à porta entreaberta do quarto de Margot por alguns momentos. De repente faltavam-lhe forças. Silencioso, de cabeça baixa, empurou a porta com dois dedos retorcidos pela doença. A porta abriu-se com um ranger melancólico: Lázaro viu primeiro o piso de madeira. Era diferente do piso nos outros cômodos. Era uma madeira escura que escurecia o aspecto do quarto inteiro e abrigava os dois tapete persas de Margot. Notou logo que haviam mexido em um deles: no padrão geométrico bordado no tapete, havia uma imperfeição – obrigatória em todo tapete persa legítimo. Só que não estava no mesmo lugar de sempre. Haviam girado o tapete. No fundo do quarto, a cama de Margot: cama de viúva. Comprada quando Lázaro saiu de sua vida, como se tivesse morrido. Era banhada pela luz daquele fim de tarde: vermelha, entrando pela janela e sendo filtrada por persianas. A luz na cama eram cortes profundos. A cama, com luzes e sombras, era um tigre transmodificado em mobília. Lázaro veio sentar-se em seu lombo, acariciando-a como para evitar que acordasse. Por um momento, devaneou na ilusão de que acariciava Margot. As curvas mornas de Margot adormecida, nua e jovem. Seu corpo esbelto que ela dizia ser gordo de teimosa que era. Forçou-se a despertar e recolheu a mão atrevida. Acendeu a lâmpada da mesa de cabeceira e a luz mostrou-lhe um vulto ao lado do armário. Seu coração acelerado esperando encontrá-la: vestiria seu casaco de pele perfumado e as roupas de uma senhora de respeito, vindo dizer-lhe que o amava.

Não. Era apenas o casaco de pele pendurado na porta do armário. Perfumado, porém oco, sem Margot em roupas requintadas por dentro. Lázaro arrastou-se até ele como um morto-vivo e afundou o rosto na pelagem, as lágrimas brotando em profusão enquanto absorvia aquele perfume até seus pulmões estarem prestes a arrebentar. Tinha medo de que o aroma sumisse com o tempo e com ele toda memória visceral de Margot. Caiu de joelhos frente ao casaco, soluçando como criança. Quase podia sentir os dedos carinhosos e macios dela percorrendo seus cabelos que não mais existiam enquanto ela sussurrava: “Shh… Calma, meu amor. Vai ficar tudo bem.”

Prof. Pedro Leão

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