Ensaio sobre a Morte

Publicado em 20/05/13

“Ah!” Resmungou, ao acordar.

E, tão subitamente quanto abriu seus olhos, compreendeu que estava morto. Levantou-se do que julgou ser sua cama e suspirou. Analisou o quarto onde estava, ainda atônito por conta da intuição que poucos segundos atrás tivera. Sentia que conhecia o lugar, que estava vazio, à parte da cama, e fracamente iluminado por uma lanterna cuja chama mostrava seus últimos sinais de vida. Esse sentimento, porém, não o confortou. Pelo contrário, a certeza de que esteve lá antes não trazia conforto, mas sim a maior das incertezas: de onde conhecia o lugar?

Suspirou novamente e sentou-se à cama. Sua respiração ofegante e preocupada estava atrapalhando a clareza e objetividade de seus pensamentos, então, já que sabia que estava morto, decidiu parar de respirar; e assim o fez. Mas isso não ajudou em nada, pois sua mente ainda estava repleta de incertezas.

Não o preocupava querer saber das questões da morte, se estava no céu, no inferno, ou até mesmo no Infinito; preocupavam-no as questões da vida. Afinal, o verdadeiro problema era que ele não sabia nada da própria vida. Não sabia quem foi, o que fez, nem quando e por quanto viveu. Dentre tantas possibilidades, todas incertas, só podia ter certeza de uma: de que estava morto.

Como saber se ele merecia o destino que recebera? Se havia vivido com dignidade e honestidade? Ou se não passava de um assassino, ladrão? As dúvidas atormentaram-no de tal modo que levantou abruptamente da cama e começou a socar as paredes sem janela do quarto, berrando por ajuda. Parou, e percebeu que nunca tinha escutado a própria voz. Sentou mais uma vez na cama, e a chama da lanterna finalmente apagou.

No escuro, a incerteza transformou-se em desespero. A morte não trazia mais nenhum conforto, e ele não descansaria enquanto não entendesse, por uma vez, quem foi. Tremia, suava, chorava, enquanto a duvida saboreava-se da pobre alma torturada.

Quando, de súbito, percebeu.

A única razão pela qual não sabia quem foi, era porque nunca havia sido. Se não sabia nada da própria vida, era porque nunca viveu. Esse pensamento trouxe, afinal, conforto. Uma vez que nunca havia existido, percebeu que, assim como suas incertezas, ele mesmo também, agora, não existia. Deitou-se e contemplou a inexistência.

“Ah!” Resmungou, ao acordar.

Rodrigo Leme, 3H3

 

 

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