Discurso Turma Exatas 2013 – Profa. Marise Hansen

Publicado em 17/02/14

Boa noite,
É com muita alegria que dirijo essas palavras especialmente aos formandos da área de Exatas, agradecendo publicamente a honra que me concederam de ser sua paraninfa.
Participar assim dessa cerimônia de encerramento de um ciclo (e que ciclo!) para mim é um privilégio e, podem ter certeza, é um símbolo que motiva e alimenta meu trabalho da maneira mais elevada possível.
Nessas férias, lendo um poema de Ferreira Gullar, me deparei com o seguinte verso:
“muitos são os dias num só dia”;
imediatamente, pensei em vocês, e no dia de hoje. De quantos dias é feito o dia de hoje? Principalmente, quantos acontecimentos, experiências e sentimentos – estão contidos no dia de hoje?
Se “muitos são os dias num só dia”, este “hoje” é feito de todos os dias de escolaridade que os trouxeram até aqui; de todo o aprendizado, desde o andar e o falar até os cálculos mais complexos; dos desenhos da pré-escola até as dissertações mais profundamente filosóficas (tendo elas introdução, d1, d2 e conclusão – ou não); no dia de hoje estão contidas lágrimas, inseguranças e cansaço; sábados de exaustivos simulados e dias de intermináveis doze aulas, quando nos despedíamos às 18:30 com um “até daqui a pouco”; mas no dia de hoje também estão contidos o sorriso das amizades e comemorações; a cumplicidade entre nós, professores, e vocês; a alegria da conquista e da superação; a satisfação – que é de seus pais, da escola, de seus professores – mas principalmente, de vocês, que fizeram por merecê-la.
A mensagem que eu preparei para vocês tem a ver com algo em que acredito firmemente, e que procuro transmitir em minhas aulas – para além dos assuntos ligados à literatura. Diz diretamente respeito à prática docente, que é a experiência de que posso falar com mais segurança e também com mais satisfação – pois é o que escolhi “professar”, isto é, “abraçar”, “seguir com convicção”.
Vocês não serão – pelo menos não todos – professores. Serão também engenheiros, médicos, escritores, advogados, atores, economistas… enfim, serão profissionais.
Por isso os convido a um exercício de imaginação, que é pensar, a cada atividade que fizerem, que estarão entrando em sala de aula, mas no papel do professor.
Podem ter certeza de que a sala de aula é espaço privilegiado. Porque são muitas mentes pensantes (às vezes falantes também…); porque, longe de ser um espaço de imposição, é espaço de troca; porque se eu procurei levá-los à reflexão, vocês me alimentaram com suas dúvidas e questionamentos; porque há sempre um brilho nos olhos quando nos deparamos com qualquer descoberta – nossa ou de quem está à nossa frente, à nossa volta, e que não se encontra numa tela de computador; porque, se tivermos humildade, perceberemos que sabemos muito, mas que esse muito é muito pouco perto de todo o conhecimento que existe no espaço coletivo e virtual dos saberes – sejam eles exatos, humanos ou biológicos (tudo é número; tudo é letra… sem ambos, não se pensa, não se fala e, pior, não se é um indivíduo, como nos mostrou o vaqueiro Fabiano).
Por isso é que gostaria que vocês pensassem que estarão sempre prestes a entrar numa sala de aula – independentemente da profissão que seguirem. Porque sentirão sempre o “frio na barriga” de se deparar com o novo e com o diferente de vocês. Terão de se fazer respeitar (as pessoas poderão não gostar de suas ideias, ou não concordar com elas – mas terão de respeitá-las) e respeitar a diversidade que encontrarão diante de si.
Mas, principalmente, terão de se preparar para entrar “em sala de aula”. Engana-se quem acha que o professor já sabe tudo “de cor”, que apenas repete um conteúdo já dito à exaustão; é preciso sempre fazer uma coisa que reside nos bastidores e que se chama “preparar aula”. A preparação da aula é o momento da atualização; do aprofundamento; do reconhecimento de falhas e lacunas. O profissional dedicado está sempre em formação: como o professor, que a cada ano prepara suas aulas como se fosse ministrá-las pela primeira vez. Então talvez se lembrem de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro dizendo que é preciso passar sempre por uma “aprendizagem de desaprender”; assim estarão cada vez mais preparados e seguros, mas, ao mesmo tempo, abertos para a aventura do desconhecido.
Recebam com carinho esse desejo de uma professora: de que tenham sorte e felicidades, independentemente daquilo que escolherem professar.
Marise

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