Depoimento de uma repetente

Publicado em 27/11/13

Por fim, chegamos ao quarto bimestre. O ponto final do ano letivo. A contagem regressiva, inaudível, em nossa cabeça. Os alegres festejos do terceiro ano. As fotos no facebook e o amigo secreto, dando-nos um gostinho prévio da saudade. E o que é, para alguns, alívio, é para outros, desespero. Ninguém, além de quem está “perigando” conhece essa sensação. Ninguém mais entende como é terrível sentir aquele frio na barriga ao olhar o boletim, ou sabe como é sentir as bochechas queimando como se estivessem em chamas ardentes de vergonha quando conversam sobre notas no círculo de amigos, ninguém compreende o abismo escuro que é perder as esperanças. É assim que é. Quem está perigando repetir se sente exatamente assim, incompreendido, sozinho, e constantemente julgado. E nada mais importa. Nem os mais fiéis amigos, com as mais e ngraçadas piadas, conseguem distrair, de alguma forma. Nem os mais compreensivos dos pais conseguem consolar. Nem os mais amáveis professores, com as mais sábias palavras, conseguem acalmar. Só se pensa naquele velho diálogo mental, “eu não vou repetir, eu não posso repetir… Ai mano, e se eu repetir? Se eu repetir, mano, não quero nem pensar…” Após as bimestrais, cada um toma seu caminho. Alguns repetirão sem segunda chance. Uns passarão pelo primeiro conselho, de lá para o exame, ou para a repetência. Outros farão o exame direto, de uma, duas, ou três matérias, podendo repetir, ou passar de ano. Independente de qual meio, alguns desses alunos que estavam perigando, repetirão. Honestamente, abrir o PROGESC, alguns dias após a prova, e ler no boletim “REPETIU APÓS EXAME” me trouxe uma das piores sensações que eu já senti. Não há luz no fim do túnel, todas as horas gastas estudando escorreram pelo ralo do banheiro, levando junto o restinho insignificante que eu tinha de autoconfiança. Já era, não havia mais como lutar, nem pelo que lutar, a espada fora encravada no peito do orgulho, que gritava em agonia, enquanto sua túnica era molhada pelo sangue de sua derrota. O que aconteceu depois é pessoal, o que meus pais disseram, como reagiram, são acontecimentos familiares que não relatarei. Não por que desejo esconder algo, mas por que creio que fora algo pessoal demais para servir de exemplo. Quero generalizar o caso, deixemos a família fora disso. De qualquer forma, é o menos importante. Que importância tem a família no caso? A decepção dos pais jamais chegará aos pés da decepção do aluno consigo mesmo. Fora ele quem falhou. Ele, só ele. Ao repetir, o aluno se vê sem ter em quem jogar a culpa. É fácil mentir para os colegas, mas não é possível mentir para si mesmo, não mais. Está feito. Neste momento, muitos desistem, retiram-se da batalha cabisbaixos, aceitam a derrota. Achei péssimo ouvir um amigo dizer “Vou prum colégio mais fraco, não dá, o Band é muito forte pra mim.” Mal quero imaginar como ele se sentiu ao dizer isso. Como se a repetência em si já não fosse ruim o bastante, a desistência é outra facada no orgulho. Não é fraqueza por parte do aluno desistir, e deve doer tanto quanto realmente repetir. Não quis viver com essa culpa, optei por ficar. E ao fazê-lo, descobri que estava redondamente enganada sobre muitas coisas. REPETIR NÃO É O FIM DO MUNDO. Não dei ouvidos aos professores que diziam que seria melhor repetir e aprender devidamente a matéria, apenas para verificar que estavam certos pouco tempo depois. É gratificante conseguir resolver uma prova inteira de álgebra, coisa que nunca havia acontecido antes, e descobrir que a maioria dos exercícios estavam corretos. Realmente entender a matéria é agradável, não mais franzir a testa e se desesperar ao ler o exercício proposto é incrível. Essa sensação de paz, sincerament e, não tem preço. Quanto ao social, sim, é decepcionante saber que não participarei da formatura de meus amigos, não estarei com eles na Semana da Alegria, e que não chorarei com eles no dia da colação. Mas nada impede que continuemos amigos. Uma verdadeira amizade mantém-se mesmo sem o contato constante. Por outro lado, não conhecer absolutamente ninguém da minha nova sala me forçou a interagir com pessoas de fora do círculo de amizade já consolidado do ano anterior. Ao expandir meus horizontes assim, fiz grandes amigos que, talvez, eu sequer teria conhecido sem a repetência. E o mais importante, eu fui feliz nessa minha segunda vez no primeiro ano. Ao decidir por ficar, tive de ignorar a todas as opiniões alheias e conselhos que, em tese, poderiam me ajudar. Eu não podia sustentar mais um ano de mentiras, a ilusão é um material frágil, as paredes se desmoronam facilmente ao serem golpeadas pela impiedosa verdade. Eu não seria feliz em outro lugar, eu n ã o queria afastar-me ainda mais dos meus amigos, dar adeus a professores que tanto me apoiaram, e principalmente, não queria viver com a mentira de ter passado pelo colegial sem falhas. A reclassificação seria isso, uma manga longa cobrindo os cortes no pulso, que não ajudam, apenas escondem. O machucado tinha de ser curado, pois o orgulhoso guerreiro não estava morto, apenas ferido, e devia voltar para a batalha, honrar seu nome. Ao voltar em Fevereiro vi que felicidade existia, bastava apenas que eu a procurasse. Era ali onde eu me encaixava, eram aqueles sorrisos bobos de meus amigos, aquelas aulas inesquecíveis e marcadas por piadinhas da turma, e todas aquelas memórias que se traduziam em felicidade. Nada mais. Ao optar por ficar, não pensei na questão acadêmica, mas sim na sentimental. Não me arrependo de ter repetido. Repetir não significa perder um ano, muito menos significa se atrasar. Repetir não é motivo de vergonha, e não exibe fraqueza ou incapa cid ade nenhuma. Repetir não é o fim do mundo, é, pelo contrário, o surgimento de um mundo novo. Basta crer que tudo há de dar certo, se esforçar para que as coisas se ajeitem, e, a todo custo buscar ser feliz. Por que a felicidade, caro leitor, é a regra número um da vida.

Em homenagem a todos os professores que me ajudaram nessa jornada, e especialmente em homenagem aos professores Pedro Luís Zen e Carlos Oliveira.

Rafaella Milani Santos, 1C2 (ex 1B5)

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