Confissões de ventilador

Publicado em 06/05/13

O calor chegava a incomodar. Não era surpresa alguma que um dia de verão como aquele, com o sol decompondo-se em feixes de intensa energia solar, deixasse a temperatura a um nível desagradavelmente elevado.

E por isso o ventilador era visto como um colega instantâneo, despreocupado com o estado dele próprio, e disposto a emprestar sua companhia. Era um bom amigo naquelas circunstâncias.

O garoto aproximou-se do colega ventilador, animou-o com algumas palavras de elogio e começou a conversar com ele. Poderia parecer um monólogo – mas era certo que o amigo retribuía alguns monossílabos na forma de rajadas de vento.

E sobre o quê conversavam? O garoto aproveitava para queixar-se do mundo, listar arrependimentos e enumerar desapontamentos que vivera naquele ano. E o seu interlocutor, impassível, era aquele tipo de amigo do qual o garoto precisava no momento. O tipo de amigo que sabe ouvir.

As pás eram incessantes, obstinadas, assim como as ideias que revolviam e se contorciam na cabeça do pobre jovem. Aos poucos, suas queixas despreocupadas iam se transformando numa espécie de confissão. De reflexão.

Ele dizia que correu o ano inteiro e não encontrou linha de chegada alguma. Dizia que cansou de ficar cansado, e não deram a ele uma rede para repor as energias, agora perdidas no limbo do passado. E enfatizava que, durante o período inteiro de um ano, viveu sem saber por quê. Assim, tudo que havia ocorrido nesse tempo parecia um certo desperdício de vida. Era como se um belo quadro tivesse sido coberto por um pano preto – ele sabia que o quadro estava lá, mas só o que podia fazer era fitar a apática negritude do pano.

O menino gostava de metáforas, de comparações, e um ou outro recurso poético para fazer com que tudo o que ele falasse parecesse mais bonito. Já o ventilador, não. Ele seguia o ritmo dele, inabalado pelas confissões, duro, insensível, seco. O garoto decidiu observar o movimento de suas pás, como se tentasse ler os lábios de uma pessoa para descobrir uma verdade oculta, timidamente escondida no vácuo entre uma oração e a seguinte.

O movimento circular não se alterava em momento algum. A velocidade até poderia ser cambiada, mas essa ação programada tiraria um pouco de poesia do ar. Era como se o grande amigo tivesse algo a dizer, e o garoto fazia um certo esforço em descobrir. O ventilador não parava, não parava… Era bonito até. Não parava de ventilar até que alguém o impedisse. Ele não se preocupava se o seu companheiro humano estava feliz ou triste, com frio ou com calor. Apenas ventilava. Apenas era um ventilador. Sua existência era isso, não havia nenhuma metafísica no mundo dele.

Ele apenas era, sabia o que queria na vida, e não parava de fazê-lo.

Havia certa graça nesse pensamento. Chegava a ser ingênuo, se pensasse bem. Mas aos poucos, envolto nessa atmosfera de contemplação e descobrimento, o garoto viu que sua vida poderia ser como um ventilador.

Ele era, e sabia que era. Sua existência já havia sido garantida no berço, e se encerraria em um ponto qualquer no futuro. Por que não tornar essa existência efêmera mais agradável? Por que se preocupar com pontos de interrogação? E por que não tirar de uma vez o pano negro sobre o quadro?

Era tudo mais simples do que ele imaginava. Bastava ver tudo com olhos teimosos, como pás e hélices que não param nunca. E ele também, subitamente, teve a vontade de não parar nunca, e de não se preocupar tanto se o resto do mundo estava com frio ou com calor, desde que ele continuasse fazendo o que o deixasse feliz. Como seu notável companheiro.

Além disso, a vida dele era muito mais completa e interessante. Ele podia escolher o que quisesse fazer, diferente da função única e solitária de refrescar os outros do ventilador. A sua existência parecia plena. E ele estava feliz.

O garoto olhou com ternura para o seu companheiro naquela tarde quente de verão. De certa forma, o menino devia muita coisa à ele, que o fizera enxergar o mundo de uma maneira inédita. Ele sorriu abertamente.

O ventilador retribuía com rajadas de vento deliciosamente agradáveis.

Bruno Sato, 3E1

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