As meninas do quarto 28

Publicado em 07/05/14

curadora Roberta Sundfeld

Desenhos de meninas judias que viveram no Quarto 28, no campo de concentração nazista de Theresienstadt, são expostos pela primeira vez no Brasil

Mostra ficará em cartaz no MuBE, em São Paulo, entre os dias 23 de maio e 29 de junho de 2014 e receberá Vera Kreiner, uma das sobreviventes do Quarto 28, e Hannelore Brenner, autora do livro que deu origem à exposição

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Depois de passar por diversos países da Europa e por Israel, chega ao Brasil a exposição “As Meninas do Quarto 28”, chancelada pela ONU e adaptada do livro homônimo escrito pela jornalista alemã Hannelore Brenner e lançado recentemente no Brasil pela editora LeYa.

A exposição relata, através dos desenhos feitos por meninas judias que passaram pelo Quarto 28, o dia a dia de cerca de 50 crianças que viveram no campo de concentração de Theresinstadt, próximo à cidade de Praga, durante a Segunda Guerra Mundial.

Com mais de 35 desenhos e uma réplica de 18m² do quarto em que elas ficavam aprisionadas, além de painéis com detalhes históricos, a exposição foi escolhida pela União Europeia, em 2013, para a tradicional homenagem realizada anualmenteno Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Em 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) também selecionou a exposição para lembrar as vítimas do genocídio cometido pelos nazistas.

“O quarto, em escala real, mobiliado inclusive com beliches similares aos que elas dormiam, oferece aos visitantes a experiência de como foi a vida daquelas meninas. É emocionante ver desenhos tão coloridos e alegres dessas crianças, que viveram uma realidade tão difícil. A arte, realmente, tem um poder transformador”, afirma Karen Zolko, familiar de uma das meninas que habitou o Quarto 28 e representante da exposição no Brasil, junto com a amiga e sócia Dodi Chansky.

Há mais de meio século, entre os anos de 1942 e 1944, crianças de 12 a 14 anos moravam juntas no Quarto 28, em Theresienstadt, durante a ocupação da Checoslováquia pelos nazistas. Das 15 mil crianças do campo de concentração, apenas 93 sobreviveram. Entre estas, 15 são sobreviventes do Quarto 28.

Apesar da situação miserável, do racionamento de comida e do onipresente medo de ir para o “Leste” (Auschwitz-Birkenau), essas meninas puderam ter contato com professores, compositores e artistas – todos também prisioneiros do campo e judeus – que tentavam minimizar o sofrimento com atividades que as ajudariam a acreditar que aquela difícil situação seria transitória.

Nesse grupo de adultos determinado a proteger as crianças estava a artista plástica Friedl Dicker Brandeis que, deportada para Theresienstadt em 1942, levou poucos pertences pessoais e muitos materiais artísticos nas suas duas malas.

Friedl percebeu que a arte poderia ser uma importante ferramenta terapêutica para ajudar as crianças a superar as adversidades e a lidarem com os terríveis sentimentos de perda, medo e incerteza. Começou, então, a dar aulas técnicas de desenho e pintura para a ala infantil do campo de concentração. Ela contava histórias e pedia para que as crianças fizessem ilustrações. Como o objetivo era estimular a esperança naquele lugar, as narrativas eram sobre assuntos diversos e serviam como distração para tirá-las um pouco daquela triste realidade, tanto que as imagens não remetem em nada ao terror que elas vivenciavam.

Considerada hoje uma das precursoras da arteterapia, Friedl ficou por quase dois anos em Theresienstadt e conseguiu esconder os quase cinco mil desenhos de seus alunos em suas malas antes de ser levada para Auschwitz, em 1944. Esses desenhos foram achados 10 anos depois da guerra e levados para um museu em Praga, na República Tcheca. Das meninas que passaram pelo Quarto 28, foram encontrados cerca de 500 desenhos e 40 foram selecionados para fazer parte da mostra que viaja o mundo e chega ao Brasil pela primeira vez.

A história por trás da História – A relação do Brasil com As Meninas do Quarto 28

Não foi à toa que Hannelore Brenner, a idealizadora e detentora dos direitos da exposição e autora do livro “As Meninas do Quarto 28”, lançamento da Editora LeYa, incluiu o capítulo Ecos tardios do Brasil em sua obra. A relação entre o país e essa históriade amizade e amor à arte está intimamente ligada por conta de Erika Stránská, filha do primeiro casamento do judeu George Stransky.

Em 1938, a mãe deixou Erika aos cuidados do pai para sair em busca de melhores condições de vida na Inglaterra. George acabou se apaixonando por Valeria, então primeira bailarina do Teatro de Viena, com quem se casou e teve Monika, sete anos mais jovem que a meia-irmã. As duas costumavam brincar juntas até que Erika e seu pai foram levados para campos de concentração mantidos pelo regime nazista. Ele foi para um campo de trabalho forçado e Erika foi encaminhada para Theresienstadt, mais precisamente para o Quarto 28.

Enquanto a mãe e a filha mais nova se refugiaram na pequena Boskov, George conseguiu escapar do campo de trabalho e ir ao encontro delas. Após o final da guerra, ele começou a procurar Erika, chegando, inclusive, a ir até a Suíça atrás de uma pista de seu paradeiro. Mas, acabou descobrindo que sua filha mais velha tinha sido deportada para Auschwitz, onde foi morta numa câmara de gás.

Após a tragédia, a família tentou retomar a vida da maneira que podia e, em 1946, se mudou para São Paulo. Alguns anos depois, a caçula se casa com GregorioZolko e cria seu próprio clã: as filhas Sandra e Karen Zolko e os netos André, Adriana e Lara.

Em 1974, a família viaja para a Checoslováquia e, durante um passeio pelo Museu Judaico de Praga, visita uma exposição de desenhos de crianças feitos durante a Segunda Guerra no campo de concentração de Theresienstadt.

A enorme surpresa se deu quando Monika reconheceu a assinatura da sua irmã, Erika Stránská, em um deles. Começou, então, a busca por detalhes de como teria sido a sua vida. Mas, quase nada foi descoberto naquela época devido ao regime comunista que vigorava.

Em 2012, incentivada por um amigo, Karen Zolko resolve mais uma vez procurar informações sobre o paradeiro da meia-irmã de sua mãe.Com a dissolução da Checoslováquia e as facilidades da internet, a brasileira consegue entrar em contato com o diretor do museu e descobre que lá não estava apenas um desenho de Érika, mas sim 30 deles.

“Montar esse quebra-cabeça era um presente que eu queria dar para a minha mãe. Consegui 70 anos depois, com a ajuda fundamental de amigos e familiares”, conta Karen Zolko que, junto com Dodi Chansky, representa o projeto da exposição no Brasil.

Além de um link para acessar as imagens, o diretor do museu mandou uma lista de contatos de pessoas que poderiam ajudar com mais informações sobre a história. Uma delas era a jornalista Hannelore Brenner, que começa a trocar dados e documentos com a brasileira e mostra para a família que Erika era uma das meninas que morou no Quarto 28.

Dessa ligação surge uma amizade e a ideia de trazer a exposição para o Brasil. “Nosso objetivo agora é levá-la para mais capitais do país e, quem sabe, ajudar outras famílias a conhecer e finalizar suas histórias pessoais, como aconteceu com a minha”, revela Karen.

“Usando essa emocionante história como inspiração, queremos ajudar a difundir o poder da arte e da educação como ferramentas fundamentais para enfrentar as mais difíceis situações da vida. Para isso, incluímos na programação oficial um bate-papo com representantes de quatro instituições brasileiras que usam a arteterapia para auxiliar crianças que estão passando por momentos adversos”, explica Dodi, parceira no projeto da exposição e amiga da família há anos.

Programação:

23/05 –15h – Visita guiada seguida de palestra pela exposição com a curadora Roberta Sundfeld, a jornalista alemã Hannelore Brenner e Vera Kreiner

24/05 – 15h – Visita guiada com a curadora da exposição, Roberta Sundfeld

04/06 – 16h – Visita guiada com as arte-terapeutas Selma Ciornai e Gladys Ajzenberg e com o coordenador de projetos educativos do MuBE , Murilo Kammer

04/06 – 19h – Mesa-redonda coordenada por Selma Ciornai com profissionais de quatro instituições brasileiras especializadas em arteterapia: Claudia Vidigal, do Instituto Fazendo História (SP); Fabiana Geraldi, do projeto social Eu Sou (RJ); SirleyTanure, do Hospital oncológico GPAEAV/UFPB (PB); Michelle Barros e Bruna Domenico, do CNRVV/Butantã (SP)

Serviço

Curadoria: Roberta Alexander Sundfeld
Data:23 de maio a 29 de junho (terça a domingo)
Horário: 10h às 19h
Museu Brasileiro da Escultura
Avenida Europa, 218 – São Paulo (Estação de metrô mais próxima: Consolação)
(11)2594-2601
mube@mube.art.br

Entrada: Gratuita
Classificação: Livre

Leia mais

original (1)

Carlos Ari Sundfeld – Professor da Direito GV, autor de “Direito Administrativo para Céticos”

As meninas do quarto 28: direito à justiça e à verdade

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