As garrafas de leite

Publicado em 07/05/14

Desde que eram ambos muito jovens, o pai mandava que fosse ele buscar as garrafas deixadas na porta pelo leiteiro aos domingos. A irmã era, afinal, uma menina. Frágil, suscetível aos perigos do mundo e aos olhares de cobiça – qualquer exposição desnecessária devia ser evitada. E ele, embora tivesse nascido quase dois anos depois, embora fosse muito menos maduro em diversos sentidos, compreendia perfeitamente aquela lógica: era ele o homem quando considerava-se a relação entre os dois. Deveria ser cavalheiro e postar-se à frente dela a qualquer sinal de perigo ou desconforto, não importando qual dos dois tinha mais entendimento da situação.

O fato é que, com os anos, o amadurecimento vem, e veio, inclusive, para ele. E foi simples assim: ele estava no banho, o bebê chorava pois queria leite e a mãe pedia, impaciente, para que trouxessem alguma das garrafas que o leiteiro teria deixado lá fora naquela manhã. Ele gritou para que esperasse um pouco, já estava indo. “Não precisa, mano. Eu mesma vou. Tome seu banho”. Foi simples assim. Foi por obra de seis garrafas de leite e da figura da irmã moça que ele descobriu, aos quatorze anos, inconscientemente, que o cavalheirismo termina onde começa a dependência.

José Henrique Ballini Luiz (2H1)

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