As bestas do Restelo

Publicado em 02/09/13

 

Ranger de madeira, o grito de marujos mais alto que as vozes da multidão, ir e vir de ondas. Os tons de marrom na madeira, nas roupas do público e nos corpos dos marujos, castigados pelo sol. Mais além, o azul oceânico findava no horizonte e, depois das viagens de Colombo, estendera-se para longe. O cais da praia do Restelo recendia a suor de homens e carga. Por fim, o gosto do ar saturado pelos sais do oceano e o veneno de sabe Deus que monstros marinhos secava a boca.

A esquadra do nobre da Gama partia. Com ela ia meu irmão. Dava-lhe meu último adeus no porto, vendo-o no alto de uma das naves que se agitava ao sabor do mar, e cujo bojo arfava como um animal enorme. As mulheres choravam, escondiam o rosto nos lenços e desprendiam gemidos. As crianças acenavam aos pais com orgulho, sem saber que provavelmente nunca mais os veriam. E eu mirava meu irmão do meio dos lamentos de irmãs, mães e amores.

Mirava-o. Sua face vista de longe era meio orgulho, meio receio. E um pouco de saudade de antemão. Eu queria tocá-lo. O toque fraterno… Carregado de uma intimidade diferente. Pode-se reconhecer o toque fraterno pelo próprio toque, como reconhecer a terra em que nascemos pelo odor e as cores, enfim, pela própria terra.

As naves soltaram suas amarras e bufaram o inflar de suas velas, para cambalear pelas vagas em direção ao horizonte. E levar meu irmão… Os lamentos intensificaram-se quando as naves voltaram seus lemes para a multidão. Já não eram naves. Eram bestas marinhas das lendas remotas a despontar em alguma praia de bárbaros.

Fica, meu irmão! Por apenas mais um momento para que eu possa tocar tuas mãos e mirar-te nos olhos! Adia esta viagem rumo à antiga Tormenta no sul da África! Na tua face vi a crença de que não voltarás!

Corri pelo cais, acompanhando a nave e meu irmão, chocando-me com caixotes contendo mistérios,  entornando vasos com líquidos desconhecidos, pisoteando frutas já apodrecidas e indo de encontro a pessoas. E quando o cais terminou, estendi o braço, querendo que minha carne atravessasse o espaço sobre as águas para mais um toque, que permanecesse na memória de meu irmão e na minha pelos próximos meses,  como uma imagem queimada no fundo dos olhos. Mas o toque não deixou o cais.

Vai, meu irmão, se é o teu destino! Vai em busca de outras terras, outros toques! Traz-me notícia de que venceste o Cabo trágico! Volta com as mãos cheias de riquezas, o corpo envolto em vestes fantásticas e o nome coberto de fama!

E quando alcançares a glória em algum mar terrivelmente distante, pensa em mim. Estarei a esperar-te, o corpo sentado num cais, pernas balançando como joguete do vento, os olhos perdidos na linha entre o oceano e o firmamento e a mente a viajar sempre a teu lado.

Professor Pedro Leão 

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