Alguns mestres

Publicado em 14/10/13

            A baixa estatura, o bigode e a ocasional rabugice faziam as colegas de magistério chamarem-no, secretamente, de Leôncio, aquele do desenho do Pica-pau. Eu ria, mas no fundo me envergonhava, pois o admirava demais, mas era covarde para admitir isso e enfrentar a chacota delas. Já bastava com o professor de história (Lima?), um barbudo bem pessimista com as “novas gerações” e saudosista de uma época só dele e para a qual unicamente guardava seus parcos sorrisos. Ele encontrava em mim uma interlocutora, enquanto as outras meninas ausentavam-se, dormiam ou tramavam traquinagens contra ele. Meu lado Poliana sempre me impediu de desvalorizar algo ou alguém totalmente, sempre enxerguei (ou busquei?) o lado bom em tudo e todos.

            Em maior ou menor grau, todas gostavam de Irineu (Ventura?), pois ele propunha que, com a literatura infantil e juvenil, fôssemos leitoras, contadoras e produtoras de histórias infantis. Eu gostava muito da produção, embora me frustrasse com a invariabilidade dos bilhetes:

            Ótima ideia inicial e desenvolvimento criativo. Faltou trabalhar melhor a parte final.

            Um dia nos pegamos cansados disso, queríamos mudança e então conversamos. Ele me disse ter a impressão de que eu desistia de terminar o texto, o que ele não sabia se era por cansaço ou preguiça. Discordei de sua (má) impressão. O que ocorria, mas eu não lhe contara, é que, em verdade, antes de chegar ao fim de um texto, uma outra ideia me nascia e eu tinha pressa de agarrá-la. Não interpretava como abandono da primeira, mas ele tinha certa razão, cedi, em relação à desistência.

            Para dar um jeito nisso, tentei primeiro me concentrar no final das histórias, porém quanto mais me aplicava, mais travada ficava e o final não vinha. [Neste exato momento, penso que não sei como terminar essa crônica, afinal a escritura já me levou a um caminho não planejado inicialmente.]

            Depois, passei a começar pelo fim: imaginava um gran finale e ia compondo os antecedentes. [Só agora me ocorre um gran finale para esta crônica: um reencontro com o professor Irineu! Poderia ser hollywoodiano: ele me reconheceria após tantos anos e indagaria por que até hoje não publiquei nada. Também poderia ser à la cinema europeu: ele me olharia longamente, ouviríamos o som de uma ventania, o cenário pareceria mudar, haveria silêncio, então cada um seguiria seu caminho, sem trocarmos uma só palavra. Ou então tragicômico: eu teria nas mãos um amarelado livro dele, autografado, mas ele não me reconheceria e, pior, blasfemaria contra sua época de magistério, relatando-me todos os traumas que isso lhe causara e me estimulando a pular fora do barco enquanto ainda sou “novinha”.]

            Foi quando descobri Machado de Assis e me confortei com suas digressões e conversas com o leitor: deixava-me levar pela torrente de meu pensamento, sem censura. Passei a colecionar papéis em que anoto palavras, frases, versos, roteiros, os descaminhos de minha escritura. Não há bolsa, gaveta, agenda, estojo, caixa de presente em que não ache um deles. Na falta do papel a mão, já recorri até a sms como rascunho no celular! Mas não, caro leitor, não pense que me comparo a Machado, reconheço bem que ele termina os textos. Eis a pequeníssima diferença entre nós.

            E hoje, cada vez que revisito meus papelitos tomados de ideias iniciais ou de textos sem final, lembro-me de você, seu Irineu, de Machado de Assis e de Drummond (“que não tinha entrado na história”), tomo coragem e enfrento essa luta vã.

Professora Cátia Luciana Pereira 

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