Alegoria

Publicado em 21/05/18

Ele mentia. Ele mentia para o mundo.

Cresceu sendo um sonhador idealista. Um devido adepto às teorias Rousseaunianas. Ó, Bom Selvagem, salve-nos! Traga nosso Bem Humano de volta.

Cresceu acreditando na vida honesta. Na vida boa. No futuro feliz da humanidade. Num Viver de paz e harmonia com tudo e todos.

Cresceu.

Cresceu e aprendeu que viver não era o Viver que tinha imaginado. Não era nada do que sonhava e desejava e queria e acreditava. viver era difícil e sofrido para esses ideais. O verdadeiro viver exigia força, não boa-fé.

Saiu de casa cedo. Foi expulso. Não pelo pai ou pela mãe. Ele se expulsou. Queria Viver. Queria Viver nesse mundo que sonhava ser tão grandioso. Iria finalmente despertar o selvagem dentro de si e caminhar, sempre para frente, em direção ao futuro. Sonhou por tantos anos de adolescência com isso, que, quando alcançou a maioridade, já estava com um pé para fora. Um pé, vestido com seu melhor sapato. Tinha-o desde pequeno, mas ainda se encontrava com o tecido de pano novinho, pronto para qualquer pedregulho no caminho. Mesmo pé que, nem mesmo um ano depois de sair, tropeçou.

Tropeçou.

E tropeçou. Várias e várias vezes. Aquele sapato que havia vestido, a cada tropeço, se desgastava. E, a cada tombo que ele levava, ficava cada vez mais difícil se levantar. Tombos às vezes causados pela própria falta de percepção, ou pela confusão dos outros à sua volta. E como era confuso. Todos andavam olhando para cima. Os outros não estavam em busca de seus selvagens. Não entendia o que os outros buscavam. A maioria dos outros também não entendia. Só olhavam para cima, na esperança de, um dia, chegar ao topo.

E, para parar de tropeçar, se adaptou a isso.

Se adaptou ao viver. Passou a parar de buscar seu selvagem. Ele havia se perdido nessa vida. Deixou para trás seu sapato, agora todo mordiscado pela selvageria do viver. Calçou um novo par, de couro animal, brilhante e duro. Duro demais para ser confortável. Mas não precisava ser. Agora só iria para cima. Junto com os outros. Olhou para cima e foi.

E, ao se adaptar, mudou. Agora, usava tudo que podia para sobre-viver. Começou a não só entender o viver, mas entender também como os outros viviam. Conseguia predizer o movimento de todos. E usou isso a seu favor. Como um diretor de cinema, dirigia sua vida nos mínimos detalhes. Todas as falas, diálogos e interações. Tudo previamente imaginado. viver agora era um script.

Suas relações de trabalho se tornaram vazias, mas muito rentáveis. Amigos? Só aqueles de que poderia se receber alguma ajuda. E para que haveria necessidade de conversas banais senão para agradar alguém mais alto?  E, assim, dirigindo sua vida e suas relações, foi ao topo.

Subiu.

Emergiu. Alcançou o topo do viver. E, só quando alcançou ao topo, olhou para os lados.

Ao olhar para os lados, não se surpreendeu. Viu alguns, poucos, à sua altura. No topo. Todos viveram como ele. Dirigindo uma vida roteirizada pelos próprios protagonistas. Todos sobre-viveram.

Viu lá alguns que tinham subido com ele. E outros que nunca conheceu, mas, apenas pelo olhar cético, sabia que utilizavam todas as técnicas que ele conhecia bem. Era como estar em uma casa de espelhos gigantes. Todos iguais. Todos no topo.

Um pouco mais abaixo, viu um mundo de gente. Todos aqueles que conheceu ao longo de sua vida e todo o resto. Aqueles que viviam. Viviam, sem nunca chegar ao topo. Mas viviam.

Achava que ia ser isso. Parou de olhar para os lados. Nenhuma surpresa. Nenhuma surpresa até, por algum motivo inexplicável, decidiu dar uma última olhada. Não para os lados. Mas, dessa vez, diretamente para baixo. E, ao olhar para baixo, surpreendeu-se.

Havia lá uma mulher. A mulher. Um único ser. O único ser que não tinha nem começado a subir. Não tinha vivido. E, ao vê-la, por algum motivo profundo, talvez por se lembrar da época em que estava nesse nível, se lembrar de seus numerosos tropeços, decidiu descer para encontrá-la. Para ajudá-la. Para ensiná-la a viver.

Desceu.

Ao chegar na base, se dirigiu até ela e pôs-se a pensar. Como sempre havia feito, começou a planejar seus movimentos, suas frases e as respostas que teria. Como sempre havia feito, escreveu o roteiro dessa próxima interação. E, como sempre havia dado certo, ficou chocado quando, dessa vez, não deu.

Aproximou-se da mulher e começou. Falou, se apresentou e perguntou quem era. A resposta veio em ruídos incompreensíveis. Ficou assustado. Repetiu. Mais ruídos. Decidiu tentar fazer alguns gestos, talvez fosse outra língua. Após a linguagem corporal, a mulher ficou turva. Seu corpo quase inteiro ficou indistinguível do resto do ambiente. A única coisa que se podia ver eram seus sapatos. Seus delicados sapatos de pano. Era possível ver que estavam desgastados, porém permaneciam em seus pés, aparentando serem tão velhos quanto ela. Logo acima desses sapatos, marcas de machucados de quedas. De tropeços.

Não havia mais como entender seus movimentos. Não conseguia decifrá-la. Nunca iam conversar. Ela nunca iria viver como ele.

Perdeu a esperança de qualquer interação e voltou ao topo.

Ela ficou na base, e, contrariamente ao que ele pensava, Viveu. Viveu diferente de como os outros viviam. Não havia se adaptado, e Vivia assim. E Viveu assim. E passou pela vida dele assim. E ele, não conseguindo se adaptar à não-adaptada, viveu sua vida.

Continuou com seus sapatos de couro inteiros e íntegros. Nenhum arranhão. Mas ainda duros como da primeira vez que os botou. E ela continuou com seus sapatos de pano, desgastados e, em partes, até rasgados. Confortáveis como um par de penas no lugar de pés. E com suas diversas marcas de tropeços. Marcas que colecionava com prazer.

Ele viveu. Ela Viveu. E ele a deixou passar.

 

Pedro Kiffer, 3G

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