Publicado em 14/05/14

Eu a vi, olhando a rua pela janela.
Com um cigarro na boca, cabelos ruivos soltos ao vento, e de moletom verde.
Eu a vi da janela e não quis que ela me visse. Abaixei a cabeça, depois olhei-a de novo. Olhei para a rua, para a quadra do prédio, e depois para ela de novo.
Quem era ela, aquela moça? Quem era aquela vizinha, que eu todas as sextas encontrava no inglês? Quem era essa pessoa, que de repente, virou outra pessoa?
Não podia ser a minha vizinha, tão linda, ali parada. Era outra moça, tive certeza.
Era outra sensação, outro jeito. Outro gesto pra afastar o cigarro dos lábios, outras unhas que puxavam os cabelos para trás. Não era a minha vizinha, que não se importava com a lição de casa do inglês. Era uma pessoa maior.
E maior que digo é maior pra mim. Um maior de se destacar no meio das almas que passavam sem deixar rastros pelo caminho. De estar ali, verdadeiramente. De um modo que seu olhar dilacerava-me a alma quando eu o encontrava, desde aquele dia em que eu a vi fumando na janela.
Mas como é engraçada a paixão! De todas as meninas e todos os meninos, todos os casos breves em festas e todos os almoços seguidos de um “pode deixar que eu pago”, a desgraça foi atingir-me bem quando eu a olhava pela janela! Bastou um momentinho de vento, e o cheiro forte do cigarro já hipnotizava-me como o mais gostoso perfume; E seus cabelos, antes ruivos, agora coloriam meu mundo como pincéis de tinta vermelho-sangue.
E eu sofri, como todo apaixonado sofreu. Sofri por conta da esperança, que até hoje abala minhas emoções, pois a esperança joga com as cores. Aos olhos dela, eu podia pintar-me de vermelho. Beijar sua boca, e deitar a cabeça em seu ombro se o sono chegasse. Mas eu era o moletom verde, que ela tirava e punha de novo. Sem significado, nada de especial. Ela tinha outros amigos, outros hábitos, ia à outra escola, e sofria por outras pessoas. Eu era só um moletom verde.
E se em meus momentos de raiva, amaldiçoei a esperança, a paixão, e o cabelo vermelho, não posso mentir, e dizer que não esperava ansiosamente pelas aulas de inglês, e pelo cheiro de cigarro que não saia de seu moletom, que muitas vezes, não era verde.

Beija-Flor (pseudônimo 2H2)

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