2 de abril

Publicado em 19/05/14

Dia 2 de abril. Tristeza, ódio, sofrimento, angustia, solidão, amargura, pesadelo, impotência, realidade… Todas as possíveis desgraças do mundo, resumidas em um dia.

A vida inteira de uma mulher em um dia. Só um dia, e nesse dia, uma vida inteira. Uma vida inteira baseada em viver pelos outros, e encerrada, ali mesmo, causando furacões dentro de todos esses “outros”, assim… vidas inteiras reduzidas ao pó, cinza e insosso. Vida por vida. Uma vida por varias, tantas… Tantas, marcadas por um só dia, e nesse dia, vidas inteiras.

Destruição de crenças inteiras em um só dia. Só um dia, e nesse dia, a destruição completa de qualquer tipo de fé. Alguns ainda tentam, forçam, e insistem que Deus é bom e sabe o que faz, e depois caem no chão aos prantos com um ódio indomável do que a levou embora. Agora mesmo, Deus está levando mães e cães para o que chamamos de “lugar melhor” porque Ele precisa, porque Ele é bom e sabe o que faz. O clássico discurso de consolo que falávamos a todos em luto, quebrado e destroçado em um só dia, como se jamais tivesse tido algum valor. Não só crenças, mas todas as possibilidades de conforto, devastadas. Deus só pode ser mau para matar nossas verdadeiras personificações do amor. Talvez seja só uma questão de contraste… Talvez, alguém precise morrer para que os outros possam valorizar suas vidas, suas vidas agora, arruinadas em lágrimas de puro ódio, e afogadas na simples incapacidade de tornar a vida doce. Incapacidade desenvolvida nesse dia, nessa inocente data, e acompanhada de uma onda de pensamentos contraditórios, filosofias paradoxais, e o ódio… Esse ódio! Esse ódio que arranha e machuca, como se de fato houvesse um monstro escarafunchando todas as entranhas e raízes.  O ódio de uma vida inteira em um dia. Só um dia, e nesse dia, todo o ódio. E aos que se recusam a odiar o próprio deus, presente em sua vida inteira, existe ainda o ódio pelo mundo, o tempo, o karma, o amor, os anos, as horas… sempre as horas… Sempre o ódio. Esse dia! Esse ódio!

Não importa a duração da vida em si, não se pode conhecer a realidade, cruel por definição, antes de se conhecer a morte. Não falo em perdas genéricas, falo em morte: o fim da vida, o fim de tudo, fim, fim, fim, o mais inevitável e irreversível. Não morrer literalmente, é claro, mas sentir uma parte da mente e do próprio corpo morrer com a morte de outro, e no dia que isso acontecer, em somente um dia de uma vida inteira, a desintegração desta, com um breve pensamento: Morrer é possível. Morrer é possível e tudo terá que continuar sem ela. Ela…

O suicídio, ou a experiência de morte pela morte dos outros, nada mais é que conhecer a vida em seus mais doces e brutais detalhes, conhecê-la como ela é, e aprender amá-la por isso, e em um dia, um só dia, desfazer-se dela. Uma vida inteira, minha vida inteira, empesteada com o gosto amargo da ausência dela, em um dia. Só um dia, e nesse dia, minha vida inteira. Dia 2 de abril.


Clarissa Dalloway (pseudonimo), 3H3 

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