Publicado em 16/10/13

Desculpe, mas eu não ligo.
Não ligo para a quantidade de tablets que se tem na biblioteca, o quão automatizados os processos são em sala de aula (incluindo nosso pensamento). Ligo, sim, para se o aluno é tratado como um número ou se tem sua opinião levada em conta, se é avaliado por outros critérios além de sua capacidade de decorar fórmulas e fazer contas.
Não ligo para quantas vezes o professor foi para Berlim aprimorar seus conhecimentos. Ligo para quantas vezes o professor e os alunos foram, juntos, aprender um com o outro em ambientes diferentes da sala de aula.
Não ligo para quantos alunos passaram no vestibular. Ligo, sim, para quantos alunos são forçados a desistir de seus sonhos em troca de um ideal de vida no qual o que ele queria não era considerado “ser alguém”, era “inútil” e “coisa de vagabundo, burro”, não só por seus colegas como para boa parte dos professores que deviam ser a ponte entre o aluno e os conhecimentos que este desejava.
Não ligo se os alunos da escola se tornam multimilionários. Ligo se os alunos são ensinados que o valor de um ser humano não vem  de seu salário e de seu alto cargo, e que caminhos que escolhem outros objetivos que não sejam ganhar muito dinheiro são válidos, que o mendigo da esquina e o CEO da multinacional tem o mesmo valor enquanto ser.
Não ligo se ex-alunos criam incríveis tecnologias ou fazem descobertas. Ligo se os alunos atuais têm tempo e espaço na escola para desenvolver seus projetos pessoais antes de sair da mesma, ou se a estrutura curricular se baseia apenas em matérias e aulas centradas no professor, que dita a verdade sem dar voz ou espaço para o aluno se manifestar.
Não ligo se alunos das “primeiras salas” do colégio vencem olimpíadas de matemática. Ligo se esse aluno sabe o mínimo sobre a vida de seus colegas, suas capacidades, dificuldades, o que gostam e não gostam que façam com eles, e tenha noção de como discutir sobre determinado assunto de forma respeitosa, tudo isso treinado em sala de aula, em trabalhos de grupo. Enfim, tenha noção de como conviver com os outros sem as regras impostas pelo “mestre”, mas por meio do diálogo.
Não ligo se o colégio é o primeiro no Enem. Ligo, sim, para se os alunos são estimulados a questionar o método de avaliação do ensino baseado em uma prova, e a valorizar outras áreas do ser humano e do mundo, não apenas aquela que pode ser medida e publicada na Veja.
Não ligo se o grêmio foi publicado na mesma Veja. Ligo se o grêmio pode ter uma sala para reunir todos os interessados em participar, sem hierarquias, como acontece em vários lugares, ou se o colégio impõe a este a antiga, hierárquica e sem significado estrutura “Presidente, secretário disso, secretário daquilo..”.
Não ligo se o colégio ganha muitas competições e usa e abusa da novíssima tecnologia. Ligo, sim, se ele nos ensina a viver com mais camaradagem, menos preocupados com competir e mais com dividir e compreender,  e mais independentes da tecnologia que nos vicia e tira nossa capacidade de pensar e viver sem um tecladinho na mão.

Luis Vicente Cavalaro, 3H2

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