Síndrome Pré-Intercâmbio 

Publicado em 20/06/17

Olá! Que bom ter você por aqui mais uma vez!

Hoje, a nossa conversa será um pouco diferente. Tenho compartilhado as coisas que vivi nos últimos meses aqui em Boston, mas a experiência do intercâmbio é muito mais ampla do que isso… Com você, os sintomas da Síndrome Pré-Intercâmbio.

O intercâmbio começa muito antes do fechamento das portas do avião rumo ao desconhecido. Semanas, meses antes. Começa antes mesmo do recebimento da notícia da aprovação. Voltemos no tempo.

Primeiro, eu quis muito, mais do que qualquer outra coisa. Prestei o processo seletivo. Não passei. Prestei de novo um ano depois. Quando recebi a notícia da aprovação, eu, que sou sempre tão cheia de palavras, não sei descrever o que senti. Só sei que tive a honra de, 3 anos e meio depois de ouvir meu pai chorando ao telefone quando eu proferi as tão sonhadas palavras “Passei na USP”, repetir a mesma situação, só que dessa vez “Passei em Harvard”.

Recebi a notícia em junho, e só viajaria em janeiro do ano seguinte. “É muito tempo,” eu dizia para mim mesma.

Os meses seguintes foram acompanhados da agonia de conseguir os fundos para tal. Outrora, o Ciências Sem Fronteiras, programa federal de intercâmbios, financiava o programa USP-Harvard. Contudo, com a crise que avassalou os cofres públicos brasileiros, tive que buscar meios alternativos para garantir meu sustento por um ano em Boston e o pagamento das exorbitantes taxas de Harvard. Quando enfim percebi que conseguiria a tão almejada bolsa de estudos, comecei a sonhar de verdade. Sonhar não, comecei a passar noites em claro de tanta empolgação pelo que estava por vir. Era setembro. “Ainda falta muito tempo.”

Então, chegou outubro. E a Síndrome Pré-Intercâmbio me atacou de vez. Comecei a me dar conta de que eu de fato ia embora. Do Brasil. De São Paulo. De casa. E as coisas que antes eram tão triviais e mundanas de repente ganharam um brilho especial. Passei a ficar horas admirando a Avenida Paulista na volta da faculdade, ao invés de andar às pressas. Passei a chegar em casa e apreciar a luz entrando pela janela, iluminando aquele lugar tão aconchegante, ao invés de ir direto para o meu quarto. Passei a saborear mais o bolo de banana da Vovó, o macarrão da Nonna e o acqua sale da minha mãe. Passei a reparar mais nos desconhecidos no metrô, seus olhares, suas expressões, ao invés de passar o trajeto todo com os olhos pregados no WhatsApp. Passei a me demorar mais nos aromas, nos sabores, nas cores, nos sons e nas pessoas. Ah, as pessoas! Eu realmente estava fazendo aquilo? Como eu poderia estar abrindo mão, ainda que temporariamente, da minha família, do meu namorado, dos meus amigos? E mais… foi naquele momento que eu percebi que eu nunca havia sido tão feliz. Eu sempre fui muito muito feliz, mas aquele momento era especial. Tudo estava exatamente onde deveria estar na minha vida, em todos os âmbitos possíveis. Como eu poderia abandonar tudo aquilo rumo ao incerto? “Ainda falta muito tempo”, eu me fazia acreditar, a fim de controlar a minha ansiedade.

Do que você está disposto a abrir mão em nome de um sonho?

Do que você está disposto a abrir mão em nome de um sonho?

Menti tão bem para mim mesma que, por muitas semanas, fui capaz de só extrair as coisas boas dessa minha nova perspectiva de vida. Eu apreciava tudo muito mais intensamente. Eu amava a vida ainda mais. Eu resolvi todas as minhas pendências, fiz as pazes com quem poderia haver algum mal entendido. “Eu tenho muito tempo.”

Então, chegou dezembro, e com ele veio o Natal, e o Ano Novo, e num piscar de olhos, já era 2017. E a ansiedade que eu havia conseguido esconder de mim mesma explodiu como nunca em forma de medo. Eu senti medo. Sim, eu sou dramática, mas tenho certeza que qualquer um que já passou por isso em algum momento se perguntou: como estará tudo quando eu voltar?

Eu, que tanto quisera, que tanto sonhara, genuinamente não queria mais sair do Brasil. Não queria fazer a mala (agradeço imensamente à minha irmã por ter me ajudado com isso), não queria entrar no avião. Eu ficava imaginando como seria chegar em Boston, em meio a um inverno impetuoso, e me sentir completamente sozinha. Medo, eu senti medo. E, quer saber? Tudo bem sentir medo, tudo bem admitir seu medo. “Ainda tenho muito tempo.”

Só que dessa vez, eu não tinha. O tempo se esgotara. Um dia antes do meu voo, fui almoçar na casa da minha avó Teresa, que carinhosamente preparou meu prato preferido como despedida. O medo já se transformara em desespero a esse ponto. Comecei a mexer em algumas fotos antigas para me distrair dos meus fantasmas internos. Eis que eu me deparo com a foto abaixo, e minhas mãos começam a tremer.

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O homem em destaque na foto é meu avô materno Arturo, minha maior saudade desde sua partida em 2009. Meu avô, de onde quer que esteja, foi a única pessoa que conseguiu me dizer o que eu precisava ouvir naquele momento: “A vida é bela. Uma vida cheia de coragem é magnífica.” Meus olhos não acreditavam no que estavam vendo. Eu enxuguei as lágrimas, levantei a cabeça, e não senti mais medo. Coragem, menina. O melhor da vida está fora da sua zona de conforto.

No aeroporto, me despedi dos meus pais, irmã e namorado com o coração apertado, mas cheio de coragem. E não chorei mais. Hoje, mais de 5 meses depois, sei que sofri por antecipação desnecessariamente, mas essa intensidade toda faz parte de mim, e não me vejo tentando mudar isso: as alegrias violentas compensam os sofrimentos. Eu adoro minha vida em Boston, nunca pensei que fosse gostar tanto. Me surpreendi demais em todos os aspectos. E sei que minha vida no Brasil me espera do jeitinho que eu deixei. De qualquer modo, se eu sentir medo de novo, tenho certeza que uma voz rouca e com sotaque italiano vai entoar aos meus ouvidos: “A vida é bela. Uma vida cheia de coragem é magnífica.”

Até semana que vem.

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

“Renda-se como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”. (Clarice Lispector)

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