Run, Boston, Run!

Publicado em 25/04/17

Bem-vindo mais uma vez.

Se algum dia você vier para Boston, independente da estação do ano, há uma coisa que você vai reparar logo nos primeiros minutos: a capital do estado de Massachusetts é sem sombra de dúvidas uma cidade que corre. Há pessoas correndo pelas ruas a qualquer hora do dia, faça chuva, faça sol, faça neve.

Escadaria do principal shopping da cidade, o Prudential Center

Escadaria do principal shopping da cidade, o Prudential Center

Como eu gosto muito de correr, esse número surpreendente e contagiante de corredores de rua captou minha atenção desde o início do intercâmbio, e comecei a refletir sobre os motivos disso. Primeiramente, Boston é assaz segura, além de ter muitos parques e ruas amplas propícios para a prática desse esporte. Em segundo lugar, a cidade recebe todo mês de abril desde 1897 a Boston Marathon, a maratona anual mais antiga do mundo, e uma das seis maratonas mais importantes do planeta, junto com Berlim, Tóquio, Nova York, Londres e Chicago. Contudo, para mim, esses motivos ainda não eram suficientes para explicar tamanha fixação por corrida. Era mais do que paixão, havia um fervor, um orgulho. Havia algo a mais…

Correndo pela Harvard Bridge

Correndo pela Harvard Bridge

Então tudo tornou-se tão óbvio. Eu lembrei, e você deve se lembrar também. Em 2013, houve um ataque terrorista à 117a Boston Marathon. Duas bombas caseiras foram detonadas perto da linha de chegada, deixando 3 mortos e 264 feridos. As explosões foram efetuadas por dois irmãos muçulmanos, Tamerlan e Dzhokhar Tsarnaev, que tinham o plano de repetir o ato na Times Square alguns dias depois, o que felizmente não se concretizou. Durante uma perseguição policial alguns dias após o ataque, Tamerlan levou diversos tiros e foi atropelado por um carro roubado dirigido por Dzhokhar, que tentava fugir. O primeiro morreu pouco depois do atropelamento, e o segundo foi encontrado no dia seguinte, preso e sentenciado à morte. Mas meu foco aqui não é esse crime horrível, então se você quiser saber mais sobre o ataque, te convido a assistir o filme Patriots´ Day, dirigido por Peter Berg e lançado em 2016.

Uma das explosões de 2013 (fonte: DAN LAMPARIELL/REUTERS)

Uma das explosões de 2013 (fonte: DAN LAMPARIELL/REUTERS)

Retornando ao meu ponto principal, eu estava tentando entender, com base em percepções pessoais, textos jornalísticos e conversas com moradores de Boston, porque correr é tão vital para essa cidade, e o ataque de 2013 é a peça que faltava nesse quebra-cabeças. Pode parecer paradoxal, mas você verá que faz todo o sentido, e tem tudo a ver com o modo como o povo de Boston lidou com o ataque. Tem a ver com superação. Naturalmente, houve luto, mas ao contrário do esperado, o sentimento predominante não era de tristeza e medo, e sim de raiva. Eu conversei, ou melhor, praticamente entrevistei diversos conhecidos sobre o assunto. Um deles é a secretária que trabalha no meu departamento na Harvard University, e enquanto ela me contava sobre os acontecimentos daquele fatídico abril de 2013, eu vi raiva nos seus olhos. Vi também alegria quando ela me contou que os bostonianos saíram para festejar nas ruas quando os dois culpados foram encontrados.

E depois, no ano seguinte? O que fazer? Seria seguro dar continuidade à maratona depois de tudo isso? A resposta, na minha visão, é corajosa e emocionante: a segurança foi reforçada, e não só houve a 118a Boston Marathon em abril de 2014, como também foi a edição com número recorde de inscritos (36 mil corredores, superando o ano anterior) e de espectadores (um milhão de pessoas na linha de chegada, nada menos do que o dobro de 2013). De toda essa história inspiradora, surgiu o maior lema daqui: Boston Strong (em tradução literal, “Boston Forte”), que remete ao triunfo da cidade sobre tal tragédia.

Retornemos, mais uma vez, ao meu questionamento inicial. Boston não corre apenas por ter belos parques, ou por sediar um grande evento esportivo. Boston não corre apenas por vaidade ou por saúde. Boston corre por orgulho, por amor, justamente porque um dia alguém tentou impedi-lo de correr.

Falamos de 2013 e 2014. Agora, conversemos sobre o presente. Se eu passei tanto tempo pensando e pesquisando sobre as origens do “Boston Strong”, por que eu só escrevi esse post agora? Simplesmente porque hoje, senhoras e senhores, é a terceira segunda-feira de abril, é Patriots’ day, é o dia da 121a Boston Marathon. E, apesar das súplicas dos meus pais, não havia a menor possibilidade de eu não ver a linha de chegada com meus próprios olhos.

A famosa linha de chegada, onde as bombas explodiram em 2013

A famosa linha de chegada, onde as bombas explodiram em 2013

Revista da polícia

Revista da polícia

A Boston Marathon percorre 42,125 km e termina com uma leve subida, uma curva à esquerda e mais alguns metros pela Boylston Street, que é o coração de Boston. Eu e minha amiga Isabella Fernandes, a quem devo os créditos das fotos a seguir, demoramos para entrar na área do evento porque havia um grande público e a polícia estava revistando cada um dos espectadores, mas conseguimos ficar justamente nessa curva da Boylston, a fim de acompanhar o último esforço dos maratonistas antes da tão esperada glória. Vi muito mais do que isso. Vi o público estimulando cada corredor que parava a poucos metros do final com câimbras a não desistir. Vi maratonistas parando para dividir sua garrafa d´água com outros. Vi corredores com bandeiras de países do mundo todo. Vi pessoas com próteses no lugar das pernas e cadeirantes cruzando a linha de chegada. Vi pais completando os 42 quilômetros empurrando seus filhos em cadeiras de rodas. Meus olhos encheram-se de lágrimas a cada um deles.

Quando um corredor é tomado pelas câimbras, o público dá muito apoio

Quando um corredor é tomado pelas câimbras, o público dá muito apoio

Quando as pernas falham, os braços completam os 42 km

Quando as pernas falham, os braços completam os 42 km

Heroína

Heroína

A multidão acompanhando a maratona

A multidão acompanhando a maratona

Se eu senti medo? Não nego que senti, era impossível não pensar em 2013. Fiquei bem alerta e preocupada no princípio. Mas a energia da maratona e de Boston estava tão maravilhosa e contagiante que os pensamentos negativos não tiveram espaço. Sempre coloco ao final de cada post uma citação, mas creio que esta mereça fazer parte do corpo do texto. O governador de Massachusetts na época do atentado, Deval Patrick, disse sabiamente: “Os terroristas tiraram vidas e membros, tiraram também um pouco do nosso senso de segurança. Mas eles nos tiraram muito menos do que eles pretendiam, e nos deram coisas que eles não imaginavam: eles nos deram um senso de comunidade, uma causa comum.”

Boston continua correndo, cada vez mais longe, cada vez mais rápido, apesar de todas as adversidades. E você? Qual a sua maratona?

Foto 11

Até a próxima.

Carol Martines
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Carolina Martines estudou no Colégio Bandeirantes de 2006 até 2012. Em 2013, foi aprovada em primeiro lugar na Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), mas optou por cursar medicina na Universidade de São Paulo (USP). Depois de concluir os quatro primeiros anos da faculdade no Brasil, foi aprovada em um programa que a Faculdade de Medicina da USP tem com a Harvard University. Este programa seleciona estudantes que terão o privilégio de ser alunos de Harvard por um ano, trabalhando com pesquisa científica.

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