Ciência e fé: choque ou conciliação?

Publicado em 21/11/15

Infelizmente, já ouvi de algumas pessoas, falando com “todas as letras”, sobre um preconceito/estigma na sociedade de que “religião é coisa de gente pobre e burra”. Vim para Harvard sem saber muito o que esperar em relação a isso. Num ambiente de “elite social e intelectual” do mundo, altamente científico, racional e objetivo: ainda assim haveria espaço para fé e religião? Seria possível conciliar a fé com a razão? Para minha surpresa, me deparei com um expressivo e respeitoso movimento de estudantes e professores em torno deste tema!

Basicamente, pude observar duas características bem importantes no ambiente em que estou: “fé não é um taboo” e “respeito/receptividade”.

Em primeiro lugar, pude ver por aqui um esforço e um movimento ativo para assegurar que o assunto religião não seja um taboo. Um dos maiores exemplos que encontrei disto foi um fórum promovido no qual dois de seus professores falariam abertamente sobre suas experiências religiosas, permitindo que os alunos enviassem suas perguntas simultaneamente. Uma das primeiras frases que o organizador do fórum falou foi que “a proposta não era ser um debate para ver qual religião era a melhor mas, sim, uma conversa para suscitar questões importantes e ouvir diferentes pontos de vista”. Foi uma experiência bem interessante, principalmente para os alunos, que puderam ouvir e interagir com os seus próprios professores de Harvard explicando o papel que a fé tem na vida deles.

Um argumento de um dos professores que chamou a minha atenção foi que “a ciência é empírica, baseada em evidências; e a fé, também” (por mais que pareça contraditório)! Por exemplo, um dos princípios básicos da Física é a lei da gravidade, que foi descrita mediante a observação de fenômenos visíveis (alusão à “maçã de Newton”), mas a gravidade propriamente dita nunca ninguém viu…o que podemos observar são apenas os efeitos e as “ações” dela. A mesma coisa acontece com a fé: por mais que não possamos ver a Deus ou o mundo espiritual propriamente dito, nós podemos observar visivelmente os efeitos e as ações dele e as “leis invisíveis” que atuam no mundo físico/concreto, assim como a gravidade. Aliás, dado que “fé é a certeza daquilo que se espera e a prova daquilo que não se vê”, até mesmo para acreditar que a gravidade existe é preciso ter fé, não é mesmo? A “fé científica” e “religião empírica” parecem ter uma argumentação válida.

Um outro argumento que também achei muito interessante foi a comparação entre a fé e a matemática. Muito – aliás praticamente tudo – do nosso mundo tecnológico de hoje só existe porque a matemática existe. Não há dúvidas de que a matemática funcione muito bem mas, para começar a construir uma linha de raciocínio em cima dela, é necessário assumir algumas premissas iniciais que, até hoje, nunca ninguém conseguiu provar (quem entende bem de matemática sabe bem do que estou falando). O mesmo acontece com a fé. Há algumas suposições iniciais que não são provadas, mas há muito que pode ser construído a partir delas que permite a construção de um “mundo” com funcionamento muito bom!

O segundo ponto que achei digno de nota foi o respeito e receptividade à discussão, a ouvir outros pontos de vista. Um grande exemplo do qual participei foi um grupo chamado GIG (Groups Investigating God) que todo semestre se organiza em diferentes “unidades” da Harvard – por exemplo, Business, Law, Medical, Education Schools. São alunos que se encontram 1 vez por semana durante 4 semanas para discutir sobre “temas importantes na vida”, tomando como ponto de partida uma história da Bíblia. O grupo, porém, é composto por pessoas com todo e qualquer ponto de vista – desde cristãos e muçulmanos até ateus e agnósticos. A proposta é criar um ambiente livre de pressão, para que todos se sintam à vontade de questionar e suscitar dúvidas. Ouvir e compartilhar, sem querer convencer os outros do seu próprio ponto de vista, é uma experiência extremamente enriquecedora!

Bom, ao que tudo indica, até mesmo na minha vivência em Harvard, ter uma “fé que pensa” e uma “razão que crê” é perfeitamente possível!

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